Certa noite

Posted on 17/04/2014 por

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certa noite

Por Carol Szabadkai

Certa noite,tive um sonho. Foi um sonho tão vivo, que carrego como lembrança de algo que vivi. E qual a diferença entre uma lembrança vivida e uma sonhada?

Meu avô Noé havia falecido, fazia alguns meses, e minha avó caía numa profunda tristeza, sem a presença daquele que sempre fora seu companheiro, indiscutivelmente, a sua metade. A harmonia entre os dois trouxe a todos nós a certeza de que o amor eterno é algo verdadeiro, inspirou-me a procurar o mesmo.

Logo que conheci meu marido, apresentei-o à minha avó – estávamos lá pelo terceiro encontro, mas eu sabia que era especial e ela também enxergou:

– Fia, você achou o seu Noé! – disse ela, com a certeza de quem reconhece um grande amor por ter vivido o seu durante tantos anos.

Como poderia ela viver sem o seu Noé? Era a questão que nos preocupava.

Minha avó não acreditava em nada sobre vida após a morte e, para ela, a possibilidade de encontra-lo mais tarde, era nula. Ele havia virado poeira, como ela mesma dizia.

Não que eu seja religiosa, mas tenho minhas crenças. Gosto de crer na magia de existir algo além da simples matéria. Cresci nessa liberdade de acreditar no que eu quero e respeitar os que não pensam da mesma forma.

Então, certa noite eu tive um sonho…

Neste sonho, eu estava em frente à casa dos meus avós, o dia amanhecia e a imagem da casinha branca, com a varanda e depois a calçada por volta, eram a perfeita replica daquele cenário tão conhecido por mim. Até mesmo as rachaduras na calçada tomavam seus postos. Havia um cheiro na atmosfera: aquele cheiro de sítio ao amanhecer, com o orvalho nas folhas e a terra úmida. Barulho de pássaros e vento atiçando as árvores.

De dentro da casa vinha um som familiar:era o rádio do meu avô ligado na AM, como ele fazia todas as manhãs, dizendo o horário com o “pulo do gato”. Um som que a vida toda eu só existiu com a presença do meu avô, em nenhuma outra circunstância eu ouvi o miado daquele gato, seguido da “hora certa”.

Comecei a chama-lo com toda força.Meu coração disparado com a certeza de que ele estava por ali. Eu sabia que ele havia falecido, mas também sabia que ele estava presente:

-Vô! Vooooô!

E quando meus gritos cessaram, eu ouvi o seu andar, seu leve arrastar de pés ao fazer o exercício diário, dando voltas e voltas na calçada da casa.

Corri em direção ao som e o encontrei sorrindo, de braços abertos para mim. A alegria que me tomava, era indescritível!

Ao chegar perto, ele segurou minhas mãos e disse com muita atenção:

-Diga a todos que eu amo cada um de vocês. E diga a vó para não se preocupar, eu estou esperando e ela tem que acreditar nisso. Fale para ela que eu a amo e estou esperando por ela.

Ele me abraçou, senti seu rosto com a barba acabada de fazer, o cheiro de loção Bozzano misturada ao seu cheiro tão familiar, senti seu abraço quente, a textura de sua roupa macia quando o apertei, fechei os olhos, senti uma lágrima escorrer… E acordei…

Acordei com a sensação nítida de seu abraço e com a lágrima escorrendo em meu rosto.

De todos os sonhos, aquele foi o mais real que vivi, talvez muito mais real que certos momentos vividos enquanto acordada.

Passei a mensagem do meu avô. Não sei se todos chegaram a escutar ou prestaram atençãoou acreditaram na força daquele sonho. Contei rapidamente, talvez, justamente por isso, eu tenha a necessidade de ainda escreve-lo, depois de tantos anos – são mais de 10.

Para a minha vó eu fiz questão de contar com detalhes.

Ela, que sempre foi descrente de tudo, sorriu numa convicção tão viva quanto a de uma beata, na certeza de que aquele havia sido seu Noé. Ver seu rosto iluminado por um instante novamente, tornara tudo irrevogavelmente real.

-Fia, – disse ela – se ele quisesse me dizer algo, é claro que falaria com você!

Certa noite eu vivi um sonho… Certos sonhos são reais… Afinal, o que é real? Se a lembrança é tão viva, então por que não considera-la como realidade?

Certa noite eu matei uma saudade e, como na vida vivida, foi só daquela vez, mas foi real.

Eu vivo a vida sonhando, por que não sonhar um sonho vivido?

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Posted in: Carol Szabadkai