Sistemas

Posted on 01/05/2014 por

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sistemas

 

Por Marco Antônio Rodrigues

“Amor e ódio”. Um grande filme. O mesmo que inspirou os parágrafos que seguem.

A história retrata Paris de 1942 que compactuou com o nazismo, exterminando mais de 20 mil judeus inocentes, entre estes, várias crianças.

Houve momentos em que capturei a autoinsatisfação de alguns soldados e oficiais no trato truculento que dispensavam aos inofensivos prisioneiros. Essa insatisfação se tornou mais expressiva na medida em que esses militares se deram conta de que estavam colaborando ativamente para o extermínio daquelas pessoas, pois as conduziam – sem conhecimento prévio – para câmaras de gases. Quando questionados por algum médico ou enfermeira – corajosos – que transitavam pelos campos de concentrações, respondiam com os semblantes abatidos: “Estou cumprindo ordens”. Realmente estavam e se não as executassem, provavelmente perderiam a vida.

Em algumas cenas o longa mostrava o comandante mor do nazismo desfrutando de momentos alegres e descontraídos, brindando com taças transparentes, sorvendo o melhor dos champanhes em suntuosas festas, cercado de parentes, amigos e muitas crianças, todos sempre sorridentes e super bem trajados.

As caraminholas começaram a se formar em minha mente. Imaginei que, assim como alguns de seus soldados e oficiais, Hitler também, em algum momento daquele período tempestuoso poderia ter sentido remorso pelas mortes, pelas angustias e aflições que impregnavam a atmosfera daquela região. A simples condição humana não deixava dúvidas de que – mesmo que brevemente – esse episódio possa ter realmente ocorrido.

Será mesmo que o sujeito que ocupava o topo, a parte mais elevada, mais pontiaguda da pirâmide nazista, poderia ter sido acometido por sentimentos de arrependimentos? Acho perfeitamente cabível e até muito provável! Quem de nós, quando em reflexões íntimas e meditativas não reavalia intenções, conceitos e ideologias? Entretanto, mesmo sendo a autoridade suprema do holocausto, mesmo que desejasse, não poderia deter a marcha dos acontecimentos.

Sempre que iniciamos algo, formações sutis, por vezes imperceptíveis também se desenvolvem paralelamente ao objetivo. São camadas sistêmicas que passam a envolver e exercer alguma forma de controle sobre nosso projeto, assim como um repolho que envolve com diversas camadas de folhas a semente que o originou, tornando-a somente mais uma peça – entre tantas outras – que compõem uma engrenagem.

Um projeto simples envolve sistemas básicos, mas os mais ambiciosos podem envolver uma gama enorme deles, que poderão atuar no campo físico, psicológico, burocrático, emocional, legislativo, mecânico, político…

Uma vez acionado o gatilho, o cursor fere a espoleta do cartucho onde o projétil está alojado. Este ato provoca uma explosão que gera gases, esses promovem a deflagração do projétil que, por estar subordinado às leis da física é impulsionado pela pressão que se originou dos gases e se desprende da capsula, percorre em alta rotatividade o interior do cano raiado e é expelido do cano com extraordinária velocidade em direção ao alvo.

Há um sistema semimecânico por detrás do acionamento do gatilho que impede o seu autor de evitar que o tiro seja disparado.

Depois de aceso o estopim da volúpia, os gametas se abraçam e formam o zigoto. Seus autores não possuem domínio sobre sua expansão, sobre seu desenvolvimento. Um complexo sistema biológico se encarregará de construir um bebê, cujo sexo, cor dos olhos, belezas ou deformidades também não estão submetidos aos desejos de seus idealizadores.

Toda semente plantada corre o risco de brotar e uma vez germinada, alguns sistemas se encarregaram de gerir o desenvolvimento daquela planta, daquele projeto, daquele empreendimento, daquela intenção, daquela obsessão, daquele plano, daquele…

José Carlos dos Reis Ensina, alcunhado como “Escadinha”, provavelmente desejou asfixiar o embrião da mais antiga facção criminosa do Brasil “Comando vermelho”, inicialmente batizado como “Falange vermelha”, mas mesmo que desejasse realizar esse aborto, não teria autonomia para isso, pois o processo já estava guarnecido por algum sistema. Fora somente o criador, o autor, o que enfiara com a ponta do dedo indicador a semente na terra fofa e fértil, tornando-se apenas responsável pelo plantio e por isso, obrigado a colher as urtigas da fama.

Poderíamos citar Bin Laden e muitos outros cânceres de nossa história, mas também podemos ilustrar esse exemplo com a figura doce de Jesus. Mesmo que sucumbisse em sua via-crúcis, mesmo que tivesse renegado tudo o que pregou, mesmo que resolvesse se autodeclarar charlatão não adiantaria, não evitaria o surgimento do cristianismo, pois tudo o que incutiu na mente dos seus seguidores: Seus exemplos, suas parábolas, seus milagres, sua cordura… Penetraram de tal forma na essência das pessoas que rapidamente se expandiu pelo país, reverberou pelo oriente e em seguida ecoou por todo planeta. Não seria qualquer ponto negativo que apagaria sua passagem positiva e edificante pelo orbe. Um poderoso sistema já havia se formado em torno da cultura, do legado, da sabedoria, dos ensinamentos que ele nos deixou.

É imperioso dispensarmos valiosa atenção sobre nossas criações mentais, pois nossos instintos, aliados ao nosso ego nos sugere constantemente o revide de uma ofensa, de uma agressão. Não raro ficamos dias arquitetando ardilosas vinganças.

O pensamento é a semente, esperando apenas ser inserida num solo proteico para aflorar e uma vez germinada, os sistemas assumem o controle. A partir daí só nos restará assumir os frutos de nossa lavoura. Que sejam açucarados!

 

 

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