A ousada e divertida língua portuguesa

Posted on 29/05/2014 por

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Por Raquel Castro

Outro dia, estávamos eu e um grupo de amigos conversando sobre a famigerada “coleira de criança”, quando alguém saiu com a pérola ”Meu filho, se eu descuido um segundo, consegue dar nó em pingo de éter.” O que surpreendeumanda todos, não pelo comportamento do filho, mas pela mudança do dito popular. Como se dar nó em pingo de água já não fosse difícil, alguém conseguiu dar nó em pingo de éter! Pronto, caiu no meu gosto. Daquele dia em diante, passei a dar nó nos fios de éter que encontrarei por meu caminho.

Dias depois, embrenhei-me em outra discussão. Dessa vez sobre a criatividade dos nossos provérbios. Quando criança, adorava os relativos aos animais do tipo “Passarinho que dorme com morcego amanhece de cabeça pra baixo” ou “Galo onde canta janta” que minha mãe costumava usar quando chegávamos tarde pro almoço. Veja bem, nem era empregado pra falar de jantar. Os relativos à natureza também eram bem usados, tais como “Quem semeia vento colhe tempestade” ou “Depois da tempestade vem a bonança”. Eu gostava, porque ficava imaginando a tal da tempestade e me sentia naqueles filmes de marinheiros que costumavam passar na sessão da tarde (TV).

Outro dia, fazendo uma pesquisa sobre mandacarus, dei de cara com um outro dito : “Mandacaru não dá sombra nem encosto”. Parece que o pessoal lá de cima usa o provérbio pra falar também das pessoas. “Aquele lá é igual mandacaru, não dá sombra nem encosto.” Mandacaru também é resistente e espinhento o que me faz pensar em outros qualificativos. Dizem que não é de bom tom você dar cactus pras pessoas, justamente  por causa disso, mas ninguém reclama dos espinhos das rosas. Eu adoro cactus, justamente, porque são resistentes. Planta tinhosa. Insiste em sobreviver nas adversidades e ainda dá flor! Não é surpreendente? Pronto. O mandacaru passou a fazer parte da minha lista de provérbios favoritos.

Eu não sei quanto a você, mas eu costumo visualizar os ditos. Minha primeira conexão não é com a palavra ou o sentido, mas com as imagens que o provérbio é capaz de criar na minha cabeça. Quanto mais lúdico for o dito, mais a minha imaginação viaja. Ouço “Camarão que dorme a onda leva” e imediatamente penso no pobre do camarão quietinho, lá na dele, e de repente vem a danada da onda e cata o bicho. Injustiça. Seria maldade se não se tratasse de uma onda. E o tal do “nó em pingo de éter” que acabou dando um nó em minha cabeça, pois a água eu ainda consigo ver, mas e o éter?

Adoro essa capacidade criativa de nossa cultura que faz a gente pensar no que não foi explicitamente dito ou escrito. Que nos impulsiona a um complexo raciocínio por associações ou imagens através de uma oratória simples, cativante e divertida.

E você? Há algum dito popular que já virou bordão na sua boca? Tem algum que você ache diferente e gostaria de compartilhar?

 

PS: Crônica escrita em Perth, Western Austrália, em 14/01/2014. A foto é de um dos meus cactus que floriu e deu essa flor, maior que o próprio cactus. A primeira flor de cactus que vi na vida. Linda!

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Posted in: Raquel Castro