Solidão

Posted on 07/06/2014 por

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Por Anna Letícia

Neste corpo jaz uma alma. Neste corpo que algum dia descansará em algum sepulcro repousa agora uma alma. Inquieta, angustiada e infeliz. Neste corpo que é minha casa uma alma tenta caber e tenta reconhecer em cada cantinho o que já me pertenceu. Esta casa já não me parece minha, ou a alma não será? Estranho os labirintos desta casa, me espanto ao me deparar com sótãos abandonados de lembranças que não tenho. As janelas embaçadas precisam de óculos, a estrutura já não agüenta qualquer terremoto. A casa nas costas me parece mais pesada, menor, menos aconchegante.

Se saber sozinha nesta casa. Sempre fui, sempre fomos todos. Solidão, legado imposto intransferível, indivisível. Trunfo, triunfo, troféu. Minha solidão é meu recanto. É quando a alma cansada das lutas se ajeita e tira um cochilo, se acomoda nos sentimentos, faz uma cama de boas lembranças da infância, um travesseiro de cheiros bons e se cobre de abraços quentes e macios. Me recolho no que é só meu, de mais ninguém. Não adianta contar, explicar, tentar traduzir, só eu conheço cada móvel deste recanto. Ainda que quebrados, velhos ou feios, são só meus. Minha solidão. Meu único e exclusivo pertence, minha propriedade. Sozinha em minha casa velha me sinto segura.

Um dia a casa cai. Fato. A sua também vai cair. É do que somos feitos: poeira de estrela. Preciso cuidar mais da minha casa, visitar minha solidão e explorar cada recanto. Cuidar para que ela possa abrigar meus filhos nos dias de frio. Cuidar para que agüente os terremotos vindouros e que sobreviva ás tsunamis hormonais. Cuidar. Simplesmente cuidar para que o que é passageiro seja eterno enquanto dure.

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