A pátria de chuteiras

Posted on 28/06/2014 por

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Em meio a tantas camisas verde-amarelas  que pululam a cidade é difícil ignorar que estamos vivenciando uma Copa do mundo em nosso território. Com a onda canarinho vem uma sapucaí de festas para brasileiros e gringos desfilarem lado a lado. Os protestos ocorrem, mas eles passam despercebidos para a maioria dos torcedores diante da euforia da Copa. Um estrangeiro pergunta o que aquele grupo cercado por policiais estava fazendo na praia de Copacabana? Eu explico. Eles entendem e se solidarizam, mas a conversa não dura mais que cinco minutos.

O que eles querem mesmo saber é da comida, das festas, do placar. Em conversas animadas, desfilam elogios às mulheres brasileiras e até aos homens: sarados, bronzeados, descolados. O inverno aqui é quente, eles dizem. A terra arde e a pele dos cariocas arde em erotismo. “Eu poderia viver aqui. Aqui é o paraíso”. Pergunto-me onde perdi meus óculos. Por que não tenho esse mesmo olhar sobre o Brasil? O que me incomoda?

Eles vivem o sonho de suas vidas. Uma Copa do mundo no Brasil. Um jogo no Maracanã. Olham admirados as levas de torcedores no metrô ornados de verde e amarelo da cabeça aos pés. As mulheres colocam maquiagem com as cores da bandeira e pintam as unhas combinando com a camisa. “Nossa! Vocês respiram futebol! Me disseram que é como religião para os brasileiros.” Falam como forma de elogio, admiração, deslumbramento, mas alguma coisa continua me incomodando. Ao mesmo tempo, fazem elogios em relação ao metrô do Rio: limpo, organizado, moderno. Meus Deus, será que sou muito exigente? Em meio a tanto entusiasmo, sinto-me perdida.

Ao voltar pra casa, converso com amigos professores, e o abatimento me envolve. O que importa a vitória do Brasil, a Fan Fest em Copacabana, a vista do Cristo Redentor  se tudo que vejo é o beco para a situação atual da educação pública no Rio de Janeiro: turmas lotadas, alunos analfabetos ingressando no 6º ano (antiga 5ª série); todos os tipos de disfunções que se podem imaginar compartilhando a mesma classe. Sem falar dos baixos salários, das inúmeras interferências de empresas privadas na gestão do dinheiro público e também em nosso trabalho; da indiferença da população e do diálogo na base da palmatória com que o atual governo “negocia” com os professores. De muitas maneiras, apanhamos dentro e fora da escola. O metrô vai bem, mas a educação…

Somente um gari vai ao meu lado reclamando dos gastos públicos com a Copa, mas os estrangeiros que lotam o trem não entendem. Como poderiam? Somos isolados em nosso próprio continente. Ninguém fala a nossa língua. Além disso, somos pacíficos, pacatos ou acomodados, tanto faz. Aparentemente está tudo funcionando, assim, eles não entendem nossa queixas.

Então meus amigos precisam fazer uma coisa muito simples: comprar um SIM card pra usar o celular aqui, mas eles têm de se cadastrar. Passamos por lojas e quiosques da VIVO e nos deparamos com sistema fora do ar, informações desencontradas, funcionários despreparados  e com caras de poucos amigos. Sem falar do tempo de espera e da burocracia usual. Começa assim: a pessoa que deveria te dar a informação não sabe nem do que você está falando.

Em supermercados e Lojas Americanas enfrentamos mais tempo de espera, que não era justificado pelo tamanho das filas, e mais caras de poucos amigos. Olham pra mim perplexos com a paciência do brasileiro. Irritados com a perda de tempo e a obscuridade com que organizamos as coisas. Tudo muito confuso, burocrático mesmo. “No meu país a gente já tinha arrumado um tumulto. Vocês são muito pacíficos. Se eu tivesse que passar por isso todos os dias já tinha enlouquecido ou feito uma besteira”. Nesse momento, respiro aliviada, pois de algum modo eles conseguem ver o outro lado da pátria de chuteiras, que vai além das festas e pontos turísticos. A alegria dos torcedores contrasta com um misto de indignação e impotência de muitos de nós. E não foi preciso nenhum papo cabeça pra eles fazerem uma leitura de outros aspectos da sociedade como  a falta de cortesia e qualificação de muitos funcionários.

Os tapumes de obra espalhados por toda a cidade também dão mostras da confusão, do atraso, da “paciência” ou da inércia do povo. O entusiasmo dos torcedores, ainda os menos confiantes,como eu, não deixa dúvida: somos a “pátria de chuteiras”, mas a realidade além da Copa não pode ser ignorada. Agora a única coisa que quica em minha cabeça é a pergunta “Qual será o legado dessa Copa para o Rio e a sociedade brasileira?”

 

PS: A “pátria de chuteiras” é um termo cunhado por Nelson Rodrigues.

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Posted in: Raquel Castro