Do que rima com amores

Posted on 14/07/2014 por

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Por Aryane Silva

A primeira vez que vi um arco-íris foi aos sete anos. Estava sentada no chão de taco, lá na casa de Bento Ribeiro, colocando as figurinhas de um álbum em ordem de importância, quando vi um feixe de luz entrar pela fresta da janela da sala e se derramar pelo sofá de couro preto (ou melhor, napa preta). Achei aquilo curioso e me aproximei para ver. A luz não era branca, como nos raios de sol e sim uma mistura de cores, com tons arroxeados, azulados e amarelos, algo que eu nunca tinha visto na vida. Ouvi passos na cozinha e gritei um “mãe, o que é isso?”, mas ninguém me respondeu. Naquele momento que eu me dei conta que eu não tinha e não teria mãe. Passei a entender o que seria esse buraco e o quanto a profundidade dele me deixaria sem respostas.

Segui os anos seguintes sem saber o que era aquele fenômeno da natureza, exceto pelo arco colorido que eu via em tantos desenhos dos meus coleguinhas de escola. Mais crescida, já passando dos onze, perguntei a um professor de Artes Plásticas da minha escola o que era aquilo. Ele tossiu, ajeitou o rabo-de-cavalo e tentou me enxotar, mas acho que ficou com pena e propôs uma atividade em turma: o conhecido “disco de Newton”. Com ele, foi explicado que o branco era a junção de todas as cores e o preto, a ausência delas.  Na verdade, ele não me explicou nada, mas aquela definição me fez pensar em outras coisas, como preconceito racial, por exemplo. Mas isso eu sabia que teria que perguntar ao professor Paulo Eduardo, de História.

Até que a minha resposta veio, sem eu precisar recorrer a ninguém. Aos dezoito anos eu me apaixonei por um vizinho. O nome dele era Adriano, um rapaz baixinho, branco de olhar doce, que estudava como um louco para passar em concursos militares. O conheci sem querer, em um luau que fui com uma amiga. Lá, paramos para conversar e o que era para ser apenas uma conversa, virou um “eu quero te ver amanhã”. Voltei para casa já às cinco da manhã e o perfume que ele usava ficou na minha regata branca. Depois de um tempo, namoramos. Ele passou em uma prova e precisaria morar em outro estado. Naquele momento, senti meu coração sair de mim e bater do lado de fora. Trocamos cartas, cada retorno dele para o Rio de Janeiro é como se eu tivesse a oportunidade de nascer novamente. Ele vinha e toda a saudade era esquecida, apagada. Ele ia embora e eu voltava a morrer. Não reparem, tinha apenas dezoito anos.

Até que ele não voltou mais. E eu entendi o que ele tentava dizer com tantos cinemas desmarcados, jantares adiados, encontros cancelados. Entendi que o único coração que estava ocupado era o meu, o dele estava de veraneio, querendo algumas férias e nada mais que isso.

Certo dia, eu voltei do curso de inglês debaixo de uma chuva torrencial. Eram três e meia da tarde de um sábado, típica chuva de verão. Entrei no apartamento correndo, ensopada por fora, mas seca por dentro, de tanto que chorei na aula, quando a professora colocou “How Deep Is Your Love”, do Bee Gees para que traduzíssemos. Abri a porta da varanda e sentei em uma cadeira, esperando a chuva passar. Olhava cada pingo cair e, ao invés de pedir o amor de volta, pensei que já estava na hora daquele sofrimento acabar. Minutos depois, a chuva cessou. Do nada, como se São Pedro tivesse tampado o ralo do céu. O sol voltou e, como anos atrás, vi um arco-íris “pular” o muro do quartel e se espatifar no chão, em frente à varanda.

Sei bem que se trata apenas de um fenômeno meteorológico, mas isso eu descobri depois, porque percebi que, em todos os momentos mais solitários e tristes da minha vida, sempre aparecia um para me dar um “olá”. Não vou citar todos os acontecimentos porque o texto ficaria mais longo do que já está.

Talvez, esses amores que a vida me deu e me tirou, sejam as rimas mais perfeitas para seu significado.

E quem sabe, nosso caminhar seja apenas isso: a união fonética e poética de cores e amores, com algumas dores para fechar o ciclo?

E disso, fica uma lição e uma certeza: diante das tempestades, não vale a pena perder a calma, basta aguardar. Depois que ela passar (porque todas sempre passam), um arco-íris virá para nos lembrar que a vida se refaz, multicolorida.

Aryane  Silva
Escritora, cronista, autora do livro (Re)Encontros

Blog: amoremletras.wordpress.com

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