A Copa do Mundo e as galinhas

Posted on 17/07/2014 por

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Claudia leite

Por Alexandre Vicente

Sempre que me falta a inspiração, busco em minhas memórias passagens que ajudaram a criar, de uma forma ou de outra, minhas histórias.

Hoje conto uma que aconteceu em 1990, quando comecei a trabalhar em subestação de energia elétrica.

Muitos podem não acreditar, mas o frango não nasce embalado e preparado para nos refestelarmos em almoços e churrascos. Cada coração de galinha é uma vida que se foi, após passar 24 horas de todos os seus dias comendo e engordando, para em tempo recorde, estar na bandeja de isopor no setor de congelados.

Pois bem, esclarecida a realidade da vida, vamos a história.

O chefe da estação morava numa casa cedida pela empresa e nesta passava os dias úteis, voltando para seus familiares no fim de semana. Lugar bucólico, o homem criava algumas galinhas que, em sua ausência, ficavam sob nossa responsabilidade (?). Era parte de nosso trabalho dar milho à criação.

Na primeira vez em que fui incumbido da tarefa, o supervisor de meu turno pediu, “Alexandre, você pode dar comida às galinhas do G.?”. Eu estranhei o pedido, até que outro colega mais antigo, me revelou que isso era parte do trabalho. Em seguida vieram as instruções, “A lata com o milho fica na cozinha.”

Segui as ordens e parti em direção a casa que ficava a uns 500 metros afastada da sala de controle, na área desenergizada. Abri a porta da sala e dei de cara com uma cena inesquecível. As galinhas estavam espalhadas por toda a casa. Uma delas, empoleirada nas costas do sofá, me saudou com um vigoroso e grave “cócócó”. Fiquei espantado! Como alguém poderia viver assim? Obviamente falo das galinhas. Era um luxo só. Duas sobre a televisão, outras chocando no sofá single e o galo correndo atrás de uma franguinha jeitosa… Me recuperei do choque e caminhei até a cozinha para pegar a lata com a ração. Voltando à porta da sala, olhei ao redor, esquadrinhei qual o melhor local para jogar o milho. Sem dúvida, com tanta regalia, aquilo não tinha a menor importância. Sem remorsos despejei a ração no tapete de centro, para onde toda a cria correu com desespero peculiar dessas aves ao ver comida.

Trabalho feito, voltei para a sala de controle, onde encontrei meu supervisor me olhando admirado, “Ué, cadê a galinha?” “Estão lá..” – respondi. “Não… Você tinha que trazer uma para fazermos para o jantar.” Dentro do panorama absurdo que me encontrava, isto soou normal. Voltei a casa e catei uma das galinhas.

Na cozinha da subestação, longe dos olhos das demais folgadas galináceas, fomos tratar a nossa caça. Um amigo perguntou “Como se mata galinha?” “É só dar uns três puxões no pescoço, que ela morre” (nessa hora, quero que lembrem que toda galinha morre antes de ir para a prateleira do mercado. Por isso não me julguem!)

Assim  foi feito. Depois de três esticadas, a galinha repousou em sono profundo. Fervemos a água para depená-la e quando jogamos sobre a bichinha, o calor foi tanto que ela ressuscitou. Juro! A franga começou a pular com o pescoço pendente e foi um pandemônio dentro da cozinha. No desespero, começamos a correr e a chutar a galinha, para nos defendermos de sua fúria, até que ela não resistiu e sucumbiu.

Assim, a galinha como o pato pateta, foi parar na panela. O jantar foi servido e G. acabou vendendo o resto da criação, ao perceber que esta diminuía inexplicavelmente.

Ahh, já ia esquecendo. A Copa do mundo acabou e o Brasil perdeu de 7×1 para a Alemanha. Naquele mesmo ano, a mesma seleção germânica foi campeã mundial na Itália.

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