Deixe ela entrar

Posted on 03/08/2014 por

8


2014-07-23 18.02.35

Deixe ela entrar (2008) é o nome de um filme sueco, cujo título original é “Låt den rätte komma in”, de Tomas Alfredson . O filme conta a história de uma menina vampira, Eli, que se mudou para o subúrbio de Estocolmo e lá, da janela de seu apartamento, passa a observar o menino Oskar.

Deixe ela entrar não é um filme de namoro adolescente tampouco um trash de terror. É sobretudo uma história de amizade e solidão. Oskar é um menino triste, solitário que passa as tardes num balanço em frente ao prédio de Eli. Como humano, ele poderia ir a todos os lugares, mas não tinha amigos e o fato de sofrer ameaças dos colegas de escola fazia-o não querer ir a lugar nenhum.

Um dia, ao perceber que está sendo observado, Oskar passa a investigar quem é o novo morador e, a partir de então, estabelece com Eli uma amizade improvável. Em uma cena, ela vai ao seu apartamento, mas se contém na entrada. Quando ele pergunta por que ela não entra, Eli diz: “você tem que me deixar entrar.” Daí o nome do filme.

Longe do aspecto glamoroso da saga Crepúsculo e das séries de TV Vampire Diries e True Blood, o filme fala da fragilidade da própria adolescência que tem de se adaptar a uma vida cheia de restrições e interditos. Para Eli, uma vampira com mais de 200 anos presa num corpo infantil, o mais difícil é ter que abdicar de uma vida normal de humano: nascer, crescer, envelhecer e morrer. Enquanto Oskar não consegue se ajustar à adolescência, procurando o isolamento. Ambos frágeis, solitários e curiosos da vida. Assim, um encontra no outro o conforto e a cumplicidade que se espera em um amigo.

Deixe ela entrar é sobretudo uma súplica à amizade, ao companheirismo, uma procura sequiosa pelo outro, seja ele de que forma ou natureza for. Foi exatamente nisso que pensei quando vi a gata de meu vizinho, Lily, gritando desesperadamente na porta e nas janelas de minha casa para que a deixasse entrar. Uma súplica insistente por brincadeiras, carinho e companhia.

Durante o período que morei na Austrália, passava manhãs ou tardes em casa que, cercada por janelas e portas de vidro, permitia uma boa vista do jardim. Mas a casa ficava um pouco exposta também, o que significava que qualquer um que estivesse no jardim, também teria uma boa visão da casa. Lily, a gata de um vizinho, passou a rondar nosso jardim, andando pelo telhado e muros. De sua posição, ela conseguia nos espiar sem ser vista. Vez por outra, quando eu estava na cozinha, era surpreendida por ela quando tentava olhar pela janela um pássaro na árvore ou quando estava no quarto, trabalhando do micro e via Lily cruzar a janela ou descer do muro. Ela vinha sempre sorrateira, esgueirando-se pelos arbustos ou janelas. Com o tempo, eu e meu marido passamos a identificar os sinais de sua aproximação. Pequenos barulhos no telhado, uma musiquinha sutil, devido à medalhinha de identificação que carregava ao pescoço. Assim, éramos nós que corríamos pra janela pra tentar descobrir onde Lily estava.

Até que com o passar do tempo, ela foi acostumando-se com nossa presença e já passava dias inteiros em nossa casa. Caçava borboletas e pássaros, bebia da água que deixávamos pra ela, refestelava-se em nossa cadeira. No calor, procurava um arbusto pra se refrescar ou tirava longas sonecas sob a sombra da extensa samambaia. Por conta dela, passei a ficar mais tempo no jardim. Lendo, fotografando ou simplesmente tomando um chá sobre a toalha que estendia na grama.

Aos poucos Lily foi entrando em nossas vidas. Transformando as tardes de inverno no jardim menos frias e preenchendo o silêncio da casa com nossas conversas malucas. Até meu marido, que sempre fora fascinado por cães, foi se deixando seduzir por sua amizade cativante. Vez por outra, quando levantávamos para fazer o café, ela já estava esperando na porta da cozinha e, ao nos ver, já ia gritando, arranhando freneticamente a tela externa até largarmos o que estivéssemos fazendo para ir ter com ela. Lily era tão presente em nossa casa que todos nossos amigos a conheciam e perguntavam por ela.

E foi graças a essa amizade inusitada e inesquecível que, de volta ao Brasil, deixamos entrar em nossa casa e corações dois gatinhos adultos, Fubá e Foxie (aí da foto). E, assim como Lily, suas aventuras felinas tornam as nossas tardes de inverno carioca mais quentinhas e divertidas.

PS: Nós adotadomos Foxie e Fubá da ONG Patas e Patas. Eles vieram castrados, vacinados e vermifugados. São fofos, carinhosos e cheios de charme. Muito obrigada Patas e Patas por esse maravilhoso encontro.

Anúncios
Posted in: Raquel Castro