É muito raro

Posted on 14/08/2014 por

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happyness_by_cannibalmuffin23

Por Aryane Silva

“Um dia feliz, às vezes é muito raro”, já dizia a canção entoada na voz de Rogério Flausino e companhia. Eu que não sou fã da banda, me rendo, a música é linda mesmo, pura poesia. Quase um protesto musical à simplicidade implícita na vida, que dispensamos na correria.

Mas será que é assim tão raro ter um dia feliz? Mais ou menos, concordo em partes. A vida não é o mar de rosas, nem na teoria, muito menos na prática. Não viemos com as respostas na ponta da língua, prontos apenas para aplausos. Somos sobreviventes de constantes rasteiras. É nessa dinâmica trôpega de cair e levantar que aprendemos. Não tem outro jeito. Podem escrever mil livros sobre a felicidade que nenhuma linha será aplicável. O negócio é ralar mesmo, esfolar a alma, tomar na cara para aprender.

Por outro lado, acho que um dia feliz é a coisa mais fácil do mundo. Um telefonema me deixa feliz. Uma carta, também. Empadinhas, esmalte novo, Vercilo no rádio, origami, anoitecer bonito, tudo isso me deixa feliz. Um passarinho abusado tentando entrar no meu quarto, me faz rir. Receber um elogio sincero me faz sorrir. Chaves, Family Guy e American Dad, me fazem gargalhar. Para ser feliz, nunca precisei estar em Paris, usar roupa que custa o salário mensal de muita gente ou ganhar o Prêmio Nobel (se bem que ir para França seria bacana). Felicidade namora com detalhes. Sutilezas. Pequenices.

Só que hoje em dia, ser feliz é quase uma ofensa. Quem ri o tempo inteiro e fala de “positive vibrations”, em um discurso riponga é falso. Você não pode mais acreditar em destino e ai de você se ficar o tempo todo agradecendo suas bênçãos. Vão dizer que você está apelando e que ninguém pode ser assim, tão assertivo. Mas acontece. Eu tinha uma amiga chamada Fernanda Keller que sempre estava de bem com a vida. Com ela, eu aprendi que dá para ser assim, basta ignorar a casca das coisas e apreciar a polpa.

Felicidade também pode ser troféu: “aqui, toma recalcada, beijo no ombro”, numa legenda de foto na rede social. Eu não tenho nada, não sou nada (já que a efemeridade da vida nos condena a isso), mas eu preciso esfregar na cara das pessoas que eu sou feliz porque tenho coisas, mesmo que eu lamente minhas mancadas para o travesseiro todas as noites.

Sim, Jota Quest, “falar é complicado”, mas eu insisto.

Ser feliz não é raro.

Raro mesmo é não saber viver.

Aryane Silva

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