Um segredo irônico

Posted on 08/09/2014 por

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Por Aryane Silva

Um dia, você vai acordar e não vai reconhecer o lugar. Ou estará fresco demais, cheio de árvores e pessoas de branco, ou quente, lamacento, escuro e fedido (é assim que descrevem o céu e o inferno). Resumindo: você estará morto. Mortinho da Silva, com vida depois da morte ou não. Você será e estará da forma que acredita.

Bateu na madeira três vezes? A gente sempre faz isso quando falam sobre morte para gente, não é? Agora saiba algo pior: essa mandinga não funciona. Você vai morrer. Todos nós. De diabetes, atropelado, dormindo, entalado com uma espinha de peixe. Esse será o nosso destino.

E quer saber do que mais (agora eu vou te surpreender): nada do que você tem irá com você dentro do caixão ou na câmara de crematório. E, se algum parente mais devoto colocar uma medalhinha ou algo que o valha, desencane: no Plano Espiritual (se é que existe) você não vai usar. Dizem que lá nem há necessidade de beber água.

E vou ser mais cruel ainda agora. Sabe aquela saia de duzentos reais de marca que você ostentou pra aquela amiga que não pode comprar? Pois é, aquela sua prima ordinária vai pegar para ela. Aquele sapato lustroso e caro Armani que você usava com terno de mesma marca em reuniões importantes na multinacional que você trabalhava, vai ser dado pro seu irmão mais novo, que sempre o quis e vai usar em uma entrevista de estágio de TI. E seu carro? Aquele que você ganhou aos dezoito e vai para a faculdade todos os dias (ou melhor, ia), será vendido ou ficará encalhado em uma garagem enferrujada até virar moradia de ratos e baratas. Talvez, o Binho, aquele cachorro que raspava a porta do seu quarto, querendo dormir ao pé da sua cama, a quem você tinha tanto amor, deixará de ser cuidado, sofra e morra de saudades de você. Aqueles móveis comprados na loja de comercial de tevê, “bege Bahia”, com tampo de vidro, que você matava um se colocassem um copo molhado sem o apoio para ele, será vendido pra churrascada de Ano Novo, ou dado pra quem casar na família.

Vai apegar? Vai sofrer por que aquele porta-retratos quebrou? Porque uma correntinha de ouro barato arrebentou e não tem conserto? Vai mesmo? Então se prepare: se você sofre por coisas, nunca saberá lidar com o sofrimento humano. Nunca entenderá o que é um sentimento e sempre terá as coisas como grilhões presos aos seus pés, que te impedem de avançar.

Apegue-se ao que é bom e eterno. O amor, por exemplo.

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