“O deus do tempo”

Posted on 15/09/2014 por

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 cronos

Por Flávia Frota Cavalcanti

 
“Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo; nem ele me persegue, nem eu fujo dele. Um dia a gente se encontra”
Mário Lago

Recentemente, eu e duas colegas de colégio nos reencontramos no Forte de Copacabana – Rio de Janeiro, após longos anos sem nos vermos. Terminado o passeio e ainda sob efeito da emoção, comparei o Forte que serviu de cenário a outro forte que possibilitou o encontro: o deus do Tempo.

O mesmo tempo que nos separou, colocava-nos frente a frente de novo. Não, ele não é apenas amargo e cruel, ele acabava de provar que também pode ser doce e gentil. Apesar de ter separado nossos caminhos, agora se desculpava e oferecia uma possibilidade de fazer as pazes conosco.

Este deus todo poderoso, nos seduz na juventude e decepciona na maturidade. Entre suas faces mais temidas estão o envelhecimento e a morte. A velhice, apesar das dificuldades, tem seu lado belo que nos recusamos a valorizar. Os que chegam a esta etapa da vida e aceitam conviver pacificamente com ela, ainda têm muito a usufruir. Além da experiência de vida, geralmente acumulam tolerância, paciência, resignação e sabedoria.

E quanto à morte, por mais cruel que pareça, não é de todo perversa. Ela não consegue apagar da memória sentimentos e lembranças, permitindo a quem se foi permanecer vivo no coração de quem fica. É verdade, quem fica sofre, mas diz o ditado que “o tempo cura tudo”, ameniza, torna a dor, digamos, menos insuportável. Para quem parte desta vida, há uma frase que serve de consolo e alívio: “A morte não é o contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários” (autor não identificado).

O tempo é contraditório: desperta medo e incerteza, mas também coragem e esperança. Tira tudo que dá: pessoas queridas, momentos felizes e fases da vida. Da mesma maneira que põe fim ao que é bom, acaba com males e sofrimentos. O tempo não permite que nada dure para sempre.

O melhor mesmo é fazer um acordo com ele e aceitar que embora não volte, “o tempo não para”, como disse o poeta Cazuza. Conviver em harmonia com este deus é questão de sensatez, e para isso é fundamental aceitá-lo do seu modo, misterioso, imprevisível e irrevogável.

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