Toc Toc Toc Tem bebê aí?

Posted on 22/09/2014 por

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lendo para o bebe

 

 

Tânia Barroso

Há bem pouco tempo, ouvi falar sobre livros para bebês. Sobre contar histórias para eles. Coisa que, confesso, me soava um pouco estranha. Se adultos tem, muitas vezes, dificuldades de entender as crianças, imaginem elas a nós. Por isso, procurei ler sobre o assunto. Refletir. Aprender, inclusive com vivências. Fiz reflexões riquíssimas.

Comecei por mim. Lembrei que minha mãe cantava algumas músicas que, naturalmente,  logo aprendíamos pela repetição. “Bicho papão saia do telhado, deixe minha menina dormir sossegada…”  Nos atraiam? Eram interessantes? Não sei. Mas vinham de uma voz conhecida. Que nos alimentava e nos cuidava. Sinônimo de conforto e segurança. Afeto. Adorávamos!

Nossas cantigas de roda eram parte da brincadeira gostosa de rua. E confesso que só há bem pouco tempo me dei conta de que “atirei o pau no gato, mas o gato não morreu…” E olhem que criávamos gatinhos e os tratávamos com muito amor. Nunca faria o que cantava. E o “Samba Lelê tá doente, tá com a cabeça quebrada. Samba Lelê precisava de umas dezoito lambadas…” Cantava para brincar com meus amigos na rua. Quer maior liberdade e alegria?

Concluí que a música nem sempre está condicionada à letra. Classificada como primeira arte, ela nos basta pela sonoridade. Doce, suave. Que acalenta. Mas, também, por tudo que está a sua volta e pela intenção de quem lhe transmite.

Assim, a voz que canta ou lê para um bebê tem o mesmo efeito. É claro, desde que haja nela verdadeira intenção de acarinhar, acolher.

Minha bíblia foi o livro “Do ventre ao colo, do som à literatura” – livros para bebês e crianças, publicado pela editora RHJ.  Mestre em Literatura, Professora Ninfa Parreiras também se utiliza de riquíssima experiência em psicologia e psicanálise infantil e juvenil. Circula por estas áreas com um olhar delicado de poeta, nos oferecendo precioso material de estudo e reflexão.

Mas quero contar a vocês o que vi, com meus próprios olhos. Participava de um grupo estagiário de futuros leitores para crianças internadas em hospitais, da ONG “Viva e deixe viver”. Nossa supervisora bateu de mansinho à porta de um quarto e, como sugere a regra, perguntou se poderíamos ler uma historinha para a criança. De tão pequena, quase não a percebemos no leito grande, de adulto. Era um bebê de prováveis 4 meses. Sua mãe foi evasiva na resposta. Deu de ombros. Sussurou qualquer coisa dando a entender que seu bebê não entenderia nada. Havia acabado de chegar e organizava o quarto como se fosse sua casa. Ajeitou seu bebê de barriguinha pra cima. O pequeno estava imóvel e seus olhinhos se prendiam fixamente no teto. Sua pequena testa, franzida com força, sugeria dor.

Grande soluço subiu no meu peito e ameaçou se expulsar em lágrimas. Para nossa função, porém, isso não seria apropriado. A orientação, caso isto ocorra, é sair do quarto. Eu não quis. Precisava ser testemunha daquela história.

Cláudia se antecipou. Como num balé ensaiado, deslizou seu corpo pra próximo do bebê. Afirmou à mãe, segura e respeitosa, que ele gostaria da história. Cumprimentou-o e, com voz baixa e suave, disse que lhe trouxera um livro para ler uma história. A criança voltou o rosto para ela. Seus olhos agora a fitavam. Sua testa se descontraiu. Claudia havia apenas se apresentado.

O Livro de Música das Crianças reproduzia som de vários instrumentos. Visivelmente emocionada, Claudia começou a contar uma história, que não era a do livro. Tinha muito amor em sua voz. A cada botãozinho acionado, o som de um instrumento acompanhava a sonoridade delicada de sua voz. A criança olhava pra ela e pro livro sem constrangimento num momento de total cumplicidade. Energia pura, que tambem ofereci e recebi.

Ao encerrar, Claudia se despediu com o mesmo carinho com que se apresentou. Sem pressa. Com ternura. O bebê voltou sua cabecinha para a posição inicial. Seus olhos voltaram ao teto e seus pulmões dobraram de tamanho, enquanto, num forte suspiro de contentamento, parecia agradecer. Dizendo o que a palavra ainda não sabia fazer.

Sua mãe, que tudo acompanhava de lado, chorava de emoção e não conseguiu falar. Saímos do quarto novos estagiários. Mais enriquecidos. Confirmada a teoria estudada.

Leiam para seus bebês! Vocês vão se surpreender com o que pode acontecer.

 

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Posted in: Tânia Barroso