Um chá com o passado

Posted on 27/10/2014 por

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Relogio antigo closeup

Por Carol Szabadkai

Todos nós temos um tipo de “máquina do tempo”, alguma coisa que nos remete instantaneamente à outra época, com um simples contato, cheiro, imagem, som ou gosto.

Temos, na verdade, várias dessas máquinas, uma para cada momento da vida e cada uma tem sua própria intensidade, seu próprio espaço na linha do tempo.

Hoje estou usando uma das minhas mais fortes: o chá mate que minha avó preparava. Minha avó costumava fazer um chá delicioso, com erva mate, cravo e canela. Ele, normalmente, era preparado em dias frios, dias de chuva no sítio, quando não podíamos fazer nada além de jogar cartas sentindo o seu cheirinho e o gosto quente ao descer pela garganta. Eu podia beber litros! Adorava! Era um cheiro de aconchego, um gosto de carinho de vó, temperado com risadas e palavras doces, no ambiente mágico da minha infância.

Apesar desse não ser exatamente igual – jamais será, sem o toquinho mágico de suas mãos – ao degustar o meu chá mate, as lembranças se tornam vivas e quase que ouço as risadas da minha avó bem-humorada ao fundo, sempre falando algo engraçado ou rindo do que fazíamos. Quase posso sentir o chão gelado, de lajota e o sofá quente, já tão judiado pelos netos; o barulho da chuva, o barulho da casa, sempre tão viva; os grilos lá fora a noite ou o farfalhar dos coqueiros, que beiravam toda a calçada, por volta da casa, assanhando-se com o vento… Transporto-me, misturando o gosto do chá com todas as outras sensações: todos os cheiros, ruídos, imagens e sentimentos.

Funciona. E como!

Contudo, essa “máquina do tempo” deve ser usada com moderação, mais raramente, para não perder seu gosto de passado, trazendo-a como parte do meu presente. Não quero que tenha gosto de café da manhã na Hungria, nem de outono chuvoso em Pécs. Para isso existem outras máquinas, essa deve se conservar no sítio, com a minha avó e de tempos em tempos, me levar até lá.

Guardo esse chá somente para dias em que preciso do seu carinho, dias silenciosos e sem inspiração, quando não ligo de esquecer o presente e dar um passeio pelo meu passado no Sítio Arco-Íris. Não necessariamente um dia triste, mas aquele dia em que cairia bem um colo de vó pra conversar. E conversávamos muito…

O chá traz alguns sintomas, além do efeito costumeiro da cafeína, que já nem é tão perceptível no meu caso, tão acostumada com ela: traz um leve aperto no coração, uma felicidade com pontinha de tristeza… traz saudade.

E por que se utilizar de uma máquina que me traz esses sentimentos?

Se engana quem pensa que eu fujo da saudade. Eu convivo com ela! Faz parte do meu dia a dia, sempre longe de alguém que amo, sempre longe de uma das minhas pátrias, onde quer que eu esteja. Eu brinco com a saudade, deixo que ela me leve pra onde quiser e depois agradeço por me deixar sempre tão claro tudo o que amo. Ela vem em todos os passeios com máquinas do tempo, quando aperta mais forte, deixando bem marcante a sua presença e depois volta a sua posição original, sempre ao meu lado, sem muito atrapalhar, mas persistente.

Todos nós temos o poder de reviver o que é bom, de sentir mais perto quem amamos, basta se deixar levar e retirar o lado bom da saudade, sem pesares ou melancolia. As coisas boas da vida, mesmo estando no passado, devem sempre ocupar o seu lugar: o lado bom. Parte de cada um conservar o sorriso que guardamos para cada memória. Reviver o passado, só faz sentido se for bem aproveitado, positivamente.

Tiremos o pó de nossas máquinas e deixemos a saudade nos acompanhar num passeio agradável. Depois é só sorrir e agradecer por ter motivos para senti-la.

Obrigada por esse chá gostoso de hoje, vó!

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Posted in: Carol Szabadkai