Emoções de segunda-feira

Posted on 01/12/2014 por

3


hands_by_nikolinelr

Por Aryane Silva

Hoje, pela manhã, fui ao local que eu costumo ir para fazer minhas preces. Apesar do sono e de uma dor de cabeça que me pedia algumas horas de cama a mais, insisti. Precisava entregar umas doações e ver pessoas. Nunca, em toda a minha vida, estar com elas foi tão importante para mim. Logo eu, que sempre estou me esquivando, me escondendo, saindo à francesa, me pego rindo ao escrever isso. É tão engraçado perceber o quanto a Vida nos modifica com o tempo. Se eu precisasse me definir para você que me lê, poderia fazê-lo baseado no presente. No futuro, não ousarei ser a mesma, e sim, melhor.

Lá é um lugar de muita paz para mim. Eu me reencontro e me organizo. Coloco todos os meus sentidos em evidência, desde o café que vende na cantina e queima a ponta da minha língua, até as palavras que ouço e guardo no coração. Olhares que me encontram. Sorrisos que me abraçam. A sacralidade que me toca. Lá, eu consigo ser uma Aryane crua, dependente, exposta e disponível. Viro criança quando me fazem rir. Saio de lá mais adulta e forte quando falam que a felicidade não é deste mundo. E realmente não é.

Ao finalizar o meu encontro com o sagrado, fui arrebatada por uma canção de melodia bonita, que falava de Jesus. Eu fechei meus olhos e comecei a sentir algo me oprimir por dentro. Era pura emoção, como não vinha sentindo há tempos. Sabe aquela emoçãozinha besta, interiorana, pueril? Foi bem essa, mas comigo não poderia ser só umas lágrimas tímidas. No meu caso, qualquer choro é maremoto.

Ouvi a música inteira, fazendo um mantra avesso (e fracassado): “não vou chorar, não vou chorar, não vou chorar… pense no que você vai fazer para o almoço, lembre-se da conta de telefone que está atrasada, recorde aquela pessoa que te odeia, mas não chore, Aryane. Vai pagar mico aqui, na frente de todo mundo? Calma, a música está acabando”. De nada valeu tanto pedido ao astral. Ao ouvir algumas fungadas dos meus colegas que ali estavam, me deixei levar. E foi um pranto grato, emocionado, feliz, autolimpante.

Enquanto voltava para casa, tentei encontrar o motivo para eu não querer chorar na frente de outras pessoas. E me lembrei da primeira vez que chorei de emoção. Eu tinha uns dez, doze anos, quando fui à igreja prestigiar duas primas que fariam a Primeira Comunhão juntas. Eu estava muito longe do altar, quase na saída. Quando as vi entrando, comecei a chorar tão descontroladamente, que voltei para casa, não tive coragem de ficar, tamanho era meu constrangimento depois que todos viram o meu despreparo emocional desnecessário.

O sagrado me rouba de mim. Viro outra pessoa quando fico diante dele. Se eu contar a vocês a quantidade de vezes que me emocionei ao entrar em um templo, essa crônica ficará muito extensa. Mas é impressionante o poder que ele tem sobre a minha vida. Eu, que nasci com a válvula de vazão do choro desregulada, penso no quanto seria bom se todas as pessoas resgatassem isso dentro delas. Ficar emocionado não é motivo de vergonha e sim de alegria! No mundo atual, onde as pessoas só se encantam com etiquetas de preço e embrulhos, ser sequestrado pela doçura de uma criança, por uma música bonita ou por um amanhecer na janela é lindo. As pessoas andam perdendo a mão no tempero da vida. Ao invés de adocicar, ingerem doses cavalares de sal. Nisso – até nisso – elas parecem muito com o mar.

E eu, que só navego porque o Pessoa disse que era preciso, vou além.

Navegar é pouco. Eu quero mergulhar de cabeça em novas emoções e só voltar à tona para respirar.

Anúncios
Marcado:
Posted in: Aryane Silva