A TV de cachorro dos novos tempos

Posted on 02/03/2015 por

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Por Raquel Castro

Foi-se o tempo que cozinhar era uma atividade trivial. Hoje em dia, a julgar pela opulência de programas culinários, cozinhar requer conhecimentos e habilidades que vão além da cozinha. Não basta mais seguir a receita e prestar atenção nas etapas para fazer aquela comidinha bem feita. Não adianta nem mesmo apelar para os dotes culinários. Não! Na atualidade, cozinhar passou a ser uma atividade sofisticada, ideológica e competitiva e, sendo assim, digna de celebridades.

Para Jamie Olivier, que vem travando uma batalha com o fast food, cozinhar é uma questão ideológica. A fim de combater o argumento de que tal atividade consome muito tempo, ele popularizou a ideia da “comida saudável”, fazendo programas de 30 min e, tempos depois, 15min! Ele garante que em quinze minutos é possível fazer uma entrada, um prato principal e uma sobremesa. Isso mesmo, em quinze minutos! E coisa boa, de qualidade, com ares de chef.

Mas a bandeira ideológica de Jamie não para por aí e vai muito além da cozinha. Outro dia, num jantar que mais parecia um show de horrores, matou uma ninhada de pintinhos asfixiados e espremeu dezenas de galinhas num quadrado, além de despejar quilos de pasta de frango processada em frente à plateia. Tudo a fim de demonstrar aos convidados o quão cruel é o processo de criação e abate de aves. A julgar pela reação do público, a mensagem talvez não tenha sido tão bem digerida.  Ele também espera que com isso as pessoas se sensibilizem e passem a comprar galinhas e ovos caipiras. Questionado por um dos convivas quanto ao preço, ele respondeu que esses produtos (orgânicos e caipiras) fazem bem para a saúde e isso compensaria o alto custo. Verdade? Pode até ser, mas será que nossa consciência estaria disposta a negociar com o nosso bolso? Sem falar que os preços desses produtos ainda estão inacessíveis para a maioria da população.

Em outra vertente, o ato de cozinhar transformou-se numa competição popularizada pelos Reality Shows que invadem mais as salas que as cozinhas com termos,     processos, utensílios muito distantes dos telespectadores brasileiros, que enquanto saboreiam com os olhos o shawarma de cordeiro, o quiche lorraine, o galette des rois comem um arroz com feijão ou engolem um sanduíche sem tirar os olhos da TV. Nessas competições não basta saber cozinhar. O prato tem que ter uma boa apresentação, uma pitada de criatividade e uma boa dose de sofisticação. Pode até ser aquele arroz com feijão, mas precisa ter ares de cozinha gourmet. Outro dia, ouvi um dos jurados dizer “O prato é saboroso, a apresentação é impecável, mas é um pouco simples. Faltou alguma coisa.” No que outro emendou “Definitivamente não é um prato para o Master Chef”, crème de la crème dos realities culinários.

Outra tendência são os programas de viagem em que o apresentador vai a diferentes cidades ou países para provar o sabor local enquanto fala sobre a cultura e as paisagens. Come, bebe, diverte-se ao mesmo tempo em que tempera as tomadas de paisagens ou as entrevistas com tâmaras do Irã, curry da Índia, salmão da Tasmânia, vinho do Chile, pimenta do México. Nesse sentido, não basta trazer as influências das cozinhas para a mesa brasileira, é preciso levar a mesa até esses lugares e, com ela, os consumidores ávidos pela novidade.

Na contramão do raio gourmetizador que atingiu todos os programas de culinária está um dos meus favoritos: Tempero de Família. E não é só por causa do apresentador, que além de lindo é uma simpatia. Acho que o programa resgata um pouco da culinária da avó. Aquela comida farta e trabalhosa, é verdade, mas sem mistério nem sofisticação. Não se trata de fazer um desfile de celebridades nem uma competição, tampouco uma questão ideológica ou uma enciclopédia da culinária. O frango é caipira, porque é o que está à mão. O aipim é da terra, porque tem espaço pra plantar. E se o prato não é digno de foto também não tem problema, porque o que vale é se está bem feito e gostoso, o resto são sobras.

O fato é que há programas de culinária pra todos os paladares; dos nacionais aos importados. O menu é bem variado: entrevista, competição, viagem, raízes… E cada vez mais esses programas impulsionam não só o voyeurismo gustativo dos telespectadores como também o mercado de importados. A indústria que esses programas movimentam é uma verdadeira paella de tantos elementos associados. Se pararmos pra pensar em tudo que isso envolve – produtores, fornecedores, importadoras de alimentos; companhias de viagens, restaurantes chiques, livros especializados, eletrodomésticos, utensílios, decoração, rede de supermercados, dietas, fotografia, bebidas, celebridades, TV, moda… – talvez tivéssemos uma ideia menos palatável e mais autocrítica e começássemos a refletir por que a maioria dos canais de TV, se não todos, mantém programas de culinária diários ou semanais para uma população que cada vez mais come fora?

Mas não sejamos tão cricri. Afinal de contas, todos nós temos nosso dia de chef, não é mesmo? Entre jornalismo tendencioso e um programa de culinária que alimenta nossa voracidade por consumo, talvez o último – a moderna TV de cachorro – seja socialmente menos cruel, nocivo e indigesto.

E você? Tem algum programa de culinária favorito? Alguma receita ou utensílio?

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Posted in: Raquel Castro