Esperando amigos…

Posted on 23/03/2015 por

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jarra-margaridas

Por Tânia Barroso

 

Foi no dia em que os móveis sairam do apartamento. Nossa porta, aberta pelo destino, permitiu que ela acompanhasse a movimentação à uma linha do corredor.

Aqueles móveis que tão bem conhecia, apreciava, limpava com cuidados de dona, saíam agora para um brechó, um antiquário, seja lá como se chama.

Por que então tivera todo aquele trabalho, durante tanto tempo?

Não preencheriam mais a casa para o filho, o neto, ou o amigo, já que a dona se fora.

Seguiriam pra uma loja, onde qualquer estranho pagaria uma pechincha para levar.

Lembrou de quantas vezes sonhou com aquele bar com portas de vidro trabalhado e prateleiras de madeira, como nunca vira. Pensou em quantas vezes desejou ter uma casa maior, uma sala ajeitada com aquele bar de luxo.

Abriria suas portas sempre com cuidado e carinho, tiraria alguns copos de cristal para servir seus amigos. Não sabia exatamente a que bebida se destinava cada um. Mas conhecia bem os de cerveja. Também ela se serviria com um copo de cristal e sentaria delicadamente para assistir “The Voice” na tevê.

Olhou com olhar perdido e pensamentos desencontrados. Lustrara sua madeira durante tantos anos. Lavara seus cristais. Brincava, vez ou outra, levando um copo ao alto, como para um brinde, como se fora seu.

Rolou-lhe lágrima dos olhos quando lembrou que certo dia ouvira que não deveria admirar tanto aquilo que nunca poderia ter. Para que isso acontecesse precisaria de outra casa, outros amigos e muito dinheiro…

Só então se deu conta de que suas lágrimas eram de frustração. Brincara que tudo aquilo era seu. Sentia agora que os estava perdendo sem nem tê-los tido de fato.

Encerrada a faxina, foi jogar o lixo na lixeira e encontrou um paninho bordado encardido. Aparava uma jarra de cristal sempre ocupada por flores. Tomou-o para si. Colocou-o de molho para que voltasse a ficar branco.

Lavou bem uma linda garrafa verde, que recolhera tempos atrás, naquela mesma lixeira. Agora, seria ela que se apoiaria soberba sobre o branco paninho. Encheu-a de frescas margaridas que comprou na feira de domingo. E enfeitou a sala de sua casa como quem enfeita a vida. Esperando amigos para tomar uma cerveja.

 

Verão de 2015

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