A gentileza diante das adversidades

Posted on 02/04/2015 por

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Por Raquel Castro

Dizem que a gente não leva nada da vida: nenhuma lembrança, nem prestígio ou sentimento. Nesse ponto creio que os vivos é que levam algo daqueles que se foram, mas é preciso estar atento para aprender, porque a lição pode vir de onde menos esperamos.

Meu gato, Fubá, tem andado doente. No espaço de uma semana tivemos que levá-lo ao veterinário três vezes e continuamos levando nas semanas seguintes. Ele foi furado em diversas ocasiões para fazer testes e mais de uma vez, devido à falta de jeito de quem o manipulava; teve o pelo da barriga raspado; foi transportado para vários lugares (quem tem gato sabe o quanto isso estressa o bichinho); foi incessantemente manipulado por pessoas estranhas e colocado em posições incômodas.

Mas durante todo processo cansativo e doloroso, Fubá não atacou ninguém. Limitou-se a miar. Um miado constante, baixinho, solitário, enquanto lançava-nos um olhar de apelo. Era claro: o gatinho brincalhão estava sofrendo e nós sofríamos junto com ele.

A atitude dócil de Fubá diante de toda a situação me fez pensar em nossas atitudes diante da vida. Muitas vezes, não é preciso muito para reagir de forma agressiva. Pequenas situações cotidianas são capazes de nos irritar rapidamente. A vida corre e parece que a gentileza se escorre de nossas palavras. Ultimamente vejo muita gente armada, pronta pra uma batalha, talvez devido às dificuldades do estar no mundo, do próprio ato de viver. Mas essa reação hostil não vem tornando nossa existência mais fácil, pelo contrário. Quem nos dera uma toalha fosse o suficiente para nos proteger das arranhaduras da vida…

Dizem que os animais não pensam, apenas reagem aos instintos, mas se mesmo um animal doente, colocado num ambiente estranho e sendo constantemente manipulado consegue refrear sua ferocidade, recolher suas garras e lançar um olhar de apelo e docilidade, porque é tão difícil fazermos o mesmo?

Após outros exames, Fubá foi diagnosticado com FIV, uma espécie de HIV felino. Os veterinários dizem que ele vai passar por essa situação diversas vezes e que sua expectativa de vida não é longa. Foi muito difícil pra gente receber o diagnóstico, mas isso só reforçou nosso sentimento de amor pelo meu dócil selvagem. Fubá é um gato muito carinhoso, alegre e brincalhão. Se eu não posso evitar esse tormento pelo menos quero garantir que todas as suas adversidades sejam acompanhadas de muita ternura. E quem sabe um dia, quando ele já tiver partido, eu possa ter a exata medida do quanto ele me ensinou.

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