O padre é POP

Posted on 04/05/2015 por

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Por Aryane Silva

Semana passada, acordei com a ideia fixa de me confessar. Tomei café meio que no automático, troquei de roupa e fui à capela perto da minha casa, que fica na outra rua. Era uma segunda-feira e imaginei que ela estivesse fechada, como acontece com as igrejas nesse dia, mas insisti, acreditando que um templo não pode fechar as portas para um fiel aflito. Aproveitei e coloquei um pacote de biscoitos na bolsa, pois imaginei que eu tinha tantos pecados para confessar de tantos anos (desde a primeira comunhão eu não fazia isso), que não teria tempo de vir para casa e almoçar.

Atravessei a rua e entrei na capela, que ficava logo na esquina. Vi uma moça na secretaria e perguntei se poderia falar com o padre, que eu já conhecia. Ela negou, dizendo que o padre estava de férias. Arregalei o olho, surpresa. Como assim? Padre tira férias? Perguntei à mulher e ela disse que sim.

– E isso quer dizer que eu preciso esperar o padre voltar “ao trabalho” para eu me confessar, é isso? – perguntei, enfatizando as aspas.

Ela assentiu. Na hora, pensei que fosse uma tremenda piada. Olhei pelos cantos dos tetos, procurando câmeras. Aquilo só podia ser uma pegadinha. Mas a cara dela me dizia que não. Saí de lá cuspindo marimbondo e, os pecados que eu nem lembrava mais, começaram a pesar. Confesso que xinguei a moça, o padre e até o pobre santo que estampava o nome da capela, em pensamento. Quando eu estava quase saindo, ouvi uma voz:

– Pecando novamente, mocinha? – era o padre, vindo ao meu encontro.

Ele é um senhorzinho de cabeça branca, curvadinho, baixinho e com todos os “inhos” possíveis, com um sotaque espanhol carregado, que me ajudou a nunca entender a homilia de suas missas.

– Pensei que o senhor estivesse de férias, padre. A moça da secretaria disse.

– Sim, eu estou, mas ela usou o termo errado. Mas isso não é importante, venha, vamos conversar.

Voltei pelo mesmo caminho e ele me levou a uma sala, com uma mesa comprida de madeira escura e bancos compridos, iguais aos de refeitórios em escolas públicas. As paredes traziam um azul desbotado e mal pintado. Ele sentou de frente para mim.

– Padre, eu quero me confessar.

– Pode começar. – disse ele.

– Aqui? – perguntei, surpresa.

– Claro! O que esperava? Um cubículo de madeira, com uma telinha, onde você ficaria ajoelhada? Não, menina. Eu não quero que você se confesse. Quero que você converse comigo.

Para um padre velho, ele é muito moderninho, pensei.

Então comecei a desenrolar verbalmente minha lista quilométrica de deslizes, desde os pequenos, até os maiores. Falei aos sussurros, com medo de que alguém ouvisse. Ele me olhou de um jeito tão sério que me deu vontade de sair correndo dali. Depois de alguns minutos, quando terminei, foi a vez dele falar.

– É isso que você chama de “um monte de pecados”, filha?

– Sim, padre. Acho que sim. – disse, já me preparando para uma penitência gigantesca.

– Certo. Quero que reze um Pai Nosso e uma Ave Maria.

Arregalei os olhos novamente.

– Só isso, padre?

– Ué, queria mais?

– Bem, eu imaginei que pelo tempo que não me confesso, né… – tentei argumentar, mas foi em vão.

Ele segurou em minhas mãos e pude ver aquelas manchinhas escuras nas dele, além das rugas que denunciavam idade avançada.

– Minha filha, pecado é não querer bem ao próximo. Uma pessoa que acredita no Pai, O ama e segue seus ensinamentos, não pode ser uma pessoa ruim. Você erra porque é humana, mas sua essência não erra. Tanto não erra, que fez você vir aqui, consciente de seus tropeços, para pedir perdão. Eu só sou um instrumento. Não sou eu que vou te perdoar, e sim Deus! Ele é nosso Pai, nos conhece no íntimo e já perdoou você.

Eu levantei e dei um abraço de leve nele, com medo de transparecer minha emoção.

Quando eu me virei para sair, ele me disse:

– Ah, filha! Deixe que falem, como o Cristo disse ao ser crucificado: “eles não sabem o que dizem”. Só quem te conhece é você e Deus. Ninguém mais.

Aquilo massageou meu coração.

Paguei minha penitência e saí da capela, maravilhada em saber que padres são modernos em muitas coisas, inclusive em adivinhar pensamentos.

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Posted in: Aryane Silva