A miséria oculta das ruas do Rio

Posted on 14/05/2015 por

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Por Raquel Castro

Aquele homem sentado sobre uma manta suja e puída dá a exata medida do que há de melhor e de pior em nós.

Ele é um homem como tantos outros na mesma condição. O peito nu deixa ver o corpo sujo e enfraquecido pela fome. Traz no olhar uma resignação típica daqueles que já se acostumaram a ser ignorados. Como muitos outros exilados em sua própria cidade, compartilha a sina de implorar por comida às pessoas que passam com pressa em direção ao trabalho, ao cinema, ao shopping…

Mas os que vivem com pressa também vivem envoltos em sua própria miséria, que nada tem a ver com comida. Assim, o simples fato de um desabrigado estender a mão e gritar por algo para comer não consegue mais romper a barreira de nossa apatia. A cena na General Rocca e em tantas outras ruas do Rio de Janeiro já é tão familiar que as pessoas que antes demonstravam medo ou constrangimento após serem abordadas pelos moradores de rua, parecem não mais se incomodar ou tampouco perceber sua presença.

Mas acontece que este homem conseguiu um meio de romper essa barreira de silêncio de uma forma simples e inusitada. Ele adotou um cão. Até aí, nada de extraordinário, pois é muito comum os mendigos terem cachorros, o surpreendente foi a reação das pessoas diante desse gesto.

Um belo dia, lá estava ele com seu companheiro de patas deitado sobre um trapinho e duas vasilhas, uma para água e outra para ração postas a sua frente.  O homem não olhava mais para as pessoas, nem estendia a mão em sinal de apelo. Apenas acariciava o bichinho enquanto lançava um olhar reconfortante sobre o amigo.

Notei que não era apenas eu que olhava a cena com curiosidade. Outros interrompiam a conversa ao passar pelo homem ou torciam o pescoço em sinal de incredulidade, como se quisessem checar o que acabavam de ver. Na entrada do metrô, ouvi um casal comentando o fato: “Você viu aquele homem com o cachorro? Imagina aquilo?! Até cachorro de mendigo passa bem.”

Na volta do trabalho, no fim de tarde, ele continuava lá junto com o cachorro, mas agora, sua atenção estava voltada para outra direção e para minha surpresa percebi que ele conversava com um passante, enquanto outros dois ou três estavam parados um pouco mais atrás e, a julgar pelos olhares e gestos, falavam sobre o homem com seu cachorro. Ousaria dizer que mesmo os mais apressados sorriam ao passar pela dupla. Aos poucos fui percebendo que algo extraordinário acontecia.

Todos os dias que passo ali, vejo as vasilhas de água e ração devidamente servidas, com reservas em garrafas pet. O cachorro não dorme no chão ou num jornal qualquer, mas sua mantinha está sempre cuidadosamente arrumada.

De alguma forma, este homem que não tem absolutamente nada conseguiu expor o melhor e o pior de nós. Mostrou que tratamos muito melhor nossos pets que nossos semelhantes, mas também mostrou que a mais humilde das criaturas pode fazer a diferença. Seu amor pelo cachorro ajudou a romper a barreira da apatia, do constrangimento e do medo que nos envolve diariamente e nos impele a ver os problemas sociais como meros dados estatísticos propalados pelos jornais diários.

Ainda não sei se seu gesto foi o suficiente para despertar a compaixão dos indiferentes, mas sem dúvida fez com as pessoas passassem a olhar pra aquele homem não mais como um mero indigente, mas sim como nosso semelhante, embora esse olhar forçado para o espelho revele também nossa íntima miséria.

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Posted in: Raquel Castro