A forma mais pura de amor

Posted on 01/06/2015 por

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por Raquel Castro

Ela bateu em minha porta numa tarde ensolarada após o almoço, enquanto eu assistia a uma bobagem qualquer na TV. Era uma mulher bem idosa. Os olhos pequeninos como seu corpo, os ombros curvados, devido à idade e os ossos bem salientes. Cumprimentou-me com um sorriso tímido, enquanto sacudia um papel que trazia à mão. Ela repetia as palavras help e please e sacudia o papel.

O papel era um mapa que alguém tinha feito pra ela. Deduzi que a mulher havia se perdido nas proximidades de minha casa, em Riverton, e precisava de auxílio para encontrar o ponto de ônibus. Primeiro tentei orientá-la a partir de meu jardim, mas ela sorria e com delicadeza tocava meu braço e repetia as palavras help, please.  Fitava aqueles olhos gentis, aquela face marcada pelo tempo, sustentada por um corpo franzino, dono de uma fragilidade própria de todos que já acumularam muitas histórias na vida. Como não ajudá-la?

Sob o impiedoso sol do verão australiano, seguimos para o ponto de ônibus enquanto conversávamos no dialeto da solidariedade. Descobri que era do Siri Lanka e que estava indo buscar sua neta na escola. Por todo o caminho ela segurou meu braço e repetiu incansavelmente “Thank you”. Após ter certeza de que ela ficaria bem, voltei para minha casa, com meu coração feliz, sem saber exatamente o porquê.

Na semana seguinte, ela retornou a minha casa, no mesmo horário. Sorriu. Dessa vez um sorriso diferente, confiante. Eu retribuí o sorriso, com cumplicidade. Não era preciso explicar nada. Já não usava mais as palavras help ou please. Não carecíamos de tais formalidades entre nós. Em sua sabedoria repetia apenas thank you, enquanto seguíamos para o ponto de ônibus.

Dessa vez, ela me dispensou no meio do caminho. Disse que sabia chegar dali. Eu insisti, mas sua dignidade exigia que ela seguisse sozinha. A senhora se despediu com um “Thank you” e eu retribuí com um “God bless you” – como havia aprendido com minha mãe. E no meu íntimo era eu que agradecia sem saber exatamente o porquê.

Semanas depois ela tornou a bater em minha porta.  Não era um dia ensolarado. A estação das chuvas não havia chegado, mas o dia estava nublado, cinzento, embaçado, assim como meu estado de espírito. Eu estava de mudança para outro bairro, Applecross, e tomada por um processo burocrático e cansativo que envolvia limpeza, organização, jardinagem, entre outras coisas, para a entrega das chaves da casa. Estava me sentindo um trapo, não só fisicamente. Estava deprimida mesmo. De maneira que não queria falar, ver ou fazer nada que não fosse absolutamente necessário.

Dessa vez, foi meu marido quem atendeu à porta. Ouvindo de longe aquela estranha articulação de sons dos dois – que estava longe de ser uma conversa – entendi logo do que se tratava. Imediatamente gritei “Eu atendo”, “Eu atendo”. Como não atender aquela frágil senhora? Não podia deixá-la perdida em minha porta e constrangida pela presença de meu marido. Com aparente abatimento fui recebê-la.

Agora ela não estava perdida. “Ayubowan!”, cumprimentou-me em sua língua. Trazia nos lábios um sorriso e nas mãos uma gentileza. Havia ido lá só para me ver e me ofertar umas comidinhas típicas de sua cultura em forma de agradecimento pela minha ajuda. Eraminha vez de repetir  “Thank you. Istuti”. Quando disse a ela que estava de mudança, vi seu sorriso esmaecer. Imediatamente segurou meus braços, abraçou-me e com sincero pesar dizia “No, no e depois, vendo que já era fato consumado, pois não havia mobília na casa, murmurou, em desalento, “Where?”. Quando ela me abraçou, senti toda a proteção da minha mãe que, assim como aquela senhora, comporta uma frágil estrutura, cuja força advém de sua longa experiência de vida e de batalhas.

Fiquei comovida por receber tamanho afeto de uma estranha no momento em que realmente precisava de um sorriso, uma palavra amiga, um abraço. Era evidente seu pesar pela minha partida e, quando ela se foi, eu chorei. Dessa vez, não por tristeza, mas por gratidão, que para mim é a forma mais pura de amor. Istuti. Muito obrigada.

PS: Esse texto foi escrito em 2013, enquanto eu vivia na Austrália, e atualizado para publicação nesse site. Antes de voltar ao Brasil, estive com essa senhora mais uma vez e tive a oportunidade de aprender um pouco mais sobre sua cultura. “Ayubowan” é um cumprimento muito popular, como o nosso “Oi, tudo bem?” e “Istuti” é “obrigado”. Desconheço se há flexão para o feminino. Infelizmente a imagem não tem essa palavra 😦

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