Tu erras, ele erra…

Posted on 25/06/2015 por

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ops

Por Carol Szabadkai

Hoje me deparei com uma “mania” bem característica do ser-humano: a negação de um erro.

Meu filho fez uma prova na escola, uma das questões era para ligar os desenhos às palavras correspondentes e a disposição desses estava bem embaralhada. A prova, já corrigida, na minha mão, apontava para dois erros nas ligações, onde a professora, com caneta vermelha, riscou a resposta correta. Segui um risco que meu filho fez a lápis e dava no mesmo lugar, com umas voltinhas a mais, para desviar do desenho que atrapalhava o caminho e o outro risco, ao invés de estar riscado por baixo do desenho, como a caneta da professora mostrava, estava por cima, dando uma grande volta até a resposta. Fui até ela e perguntei qual havia sido o erro do meu filho e ela disse que a ligação estava errada. Então, mostrei com o dedo o caminho e ela se surpreendeu. Tudo bem, ela errou, acontece, não é? Infelizmente, não! As pessoas não aceitam que podem errar. Ela simplesmente respondeu que estava muito bagunçado o jeito que meu filho fez e que se fosse uma prova pra valer (não valia ponto), não podia estar tão mal feita. Bem, eu achei que o jeito dele ficou melhor que o dela, mas enfim… Não quis discutir e me indispor com a professora, sendo que nem valia nota. Achei melhor conversar com meu filho e parabeniza-lo pela prova perfeita, mesmo não tendo sido reconhecida pela professora.

Essa questão ficou na minha cabeça: Qual o problema de consertar um erro?

Não pensem que essa é uma professora ruim, muito pelo contrário, ela faz muito bem seu trabalho e adora meu filho, reconhece que ele é muito inteligente e tem paciência para lidar com seu gênio forte, que não é mesmo fácil.

Tendo a pensar que isso é mesmo uma questão humana. A conjugação do verbo “errar” começa do “tu”(tu erras, ele erra…), muito raramente é conjugada na primeira pessoa. Reconhecer um erro é algo que requer coragem e prática, não é fácil e às vezes passam até despercebidas as desculpas que damos, até para nós mesmos, pelos erros que cometemos. Todo mundo quer acertar, é claro! Fazer tudo perfeito é sinal de competência. É possível fazer tudo perfeito? A perfeita competência falsa seria melhor que uma sincera competência falha?

Creio que grande parte do problema dessa nossa natureza, de não querer admitir erro, é que não ouvimos outras pessoas admitirem que erraram e fica fácil associar erro com fraqueza ou incompetência.

Eu errei, falhei! Quantas vezes você já ouviu isso na vida? E como você se posiciona quando erra? Tenta achar um motivo para o que aconteceu ou assume?

Acho que temos o reflexo de tentar uma defesa. É justo. É bom saber o motivo, para não se cometer o erro novamente, mas esse motivo que encontramos (e ficamos extremamente felizes ao acha-lo) nem sempre é genuíno. Vamos ser sinceros, eu já dei desculpa esfarrapada… Quem não? É TÃO difícil admitir! Eu entendo… Entendo a professora. Admitir é algo a ser praticado… algo que não é muito praticado…

Pois eu vejo um erro reconhecido como sinal de heroísmo e perfeição! É preciso tanta coragem para isso, que, para mim, ultrapassa a qualidade de se fazer tudo certo na primeira e arruma o fato de ter sido imperfeito, tornando-o impecável.

Algo que sempre tenho em mente quando sei que eu é que estou errada é a minha mãe. Minha mãe sempre procurou nos dar razão, entender nosso lado. Muitas vezes fomos repreendidos num momento nervoso dela, depois nos colocou no colo e pediu desculpa, explicando que ela também erra e que daquela vez ela não tinha razão. Eu tomava essa atitude como algo natural, mas não é! Poucas vezes vi pessoas fazendo o que ela sempre fez com naturalidade.

Lembro-me que quando tive meu primeiro filho ela falou tantas vezes sobre os erros que achava ter cometido comigo, quando bebê, como um pedido de desculpa… Meu Deus! Naquele momento, com um bebê no colo, eu sabia, mais que nunca, como é difícil saber o que fazer! Como é difícil seguir o que esperam de uma mãe sem sentir culpa ou total frustração por achar que é a única que não sabe fazer isso ou aquilo… Como é que você não recebeu aquela “luz” de se tornar mãe no sentido perfeito da palavra? Todo aquele peso sobre o milagre da vida… Ninguém erra?

Mas minha mãe reconheceu seus erros e ainda os confessou, mesmo sem necessidade, sem uma pressão externa para isso e nem tem noção do quanto me ajudou com esse ato. Deixei toda minha frustração de lado e aceitei que iria fazer o melhor possível e que se errasse, pediria desculpa, como ela fez. Aos meus olhos, sua imagem não se denegriu, pelo contrário, se tornou forte e inabalável, um exemplo! Como se falando sobre o erro, ela o sanasse. Com minha mãe, aprendi que aceitar os erros trata-se de sinal de força e cura. Cura a sua culpa, cura a pessoa que foi prejudicada e todos os que estão ligados ao ato. É simplesmente maravilhoso poder arrumar algo que você estragou e é maravilhoso saber que você não é a única.

Procuro lembrar-me disso com as crianças, procuro pedir desculpas por tudo o que eu fiz de errado (e atire a primeira pedra a mãe que jamais gritou sem motivo com o pequeno. Infelizmente, num dia nervoso acabamos respondendo de maneira errada, julgando errado e quem está perto, as vezes leva). Erramos! Somos humanos, estamos aprendendo a ser pais e essa profissão não é algo em que se possa tirar diploma, porque quando um problema é aprendido, vem outro, de outro tipo, a criança cresce e o aprendizado é constante. O primeiro filho sempre sofrerá erros, o segundo escapa de alguns e leva uma porção de outros, que passamos sem aprender com o primeiro… Não é vergonha, eu erro mesmo e procuro dizer isso a eles! A vida se torna mais fácil com a consciência de que seus heróis (seus pais) também erram e sabendo que o superpoder da cura dos males está na sua mão, num simples pedido de desculpa ou numa atitude para que as coisas sejam arrumadas.

Isso vale para pais, filhos, amigos, marido e mulher… O problema não é errar, isso acontece, mas deixar que o erro fique para trás, como uma ferida aberta, só para que não haja uma confirmação de quem foi a culpa. Negar até o fim. Será que isso realmente encobre os fatos? Ou todo mundo sabe, faltando apenas a tal confirmação final? Se dizer perfeito, nesse caso, não seria covardia? Afinal, admitir o erro é qualidade ou defeito? Nega-lo é louvável?

No entanto, assumir um erro, significa assumir responsabilidades e consequências. Muitos não estão prontos para assumir algo sozinho. É preciso coragem, é preciso ser heroico! Aí pode vir o “quase assumir”, que representa o quase nada também, de se dizer: eu errei mas… Quando alguém pede desculpas já a retirando, por fim, dizendo que foi merecido, praticamente. É quase como a negação, pois que não conserta nada e reafirma a ação. Se a intenção é assumir os erros, não esperemos e não misturemos os erros dos outros. Eu errei e ponto final. O erro alheio é outro assunto.

Quando cometemos um engano e isso envolve os sentimentos de outras pessoas, não podemos julgar o tamanho do estrago: – Eu errei só dessa vez e não foi nada tão grande!

Bem, o quão grande foi, somente quem foi atingido pode dizer e se seu “pequeno erro” gera grandes consequências, como poderia ser julgado como tal, posto que nasce dele algo relevante como resposta? Ações causam reações e erros podem crescer como bolas de neve se não reparados, se não aceitados como tal.

Erremos! É só assim que poderemos aprender, não tem problema! Mas deixemos de atribuir nossos erros aos outros, aos astros, ao tempo… O erro é nosso mesmo, não tem porquê tentar esconder. Acredite, todo mundo sabe! A surpresa não é você ter errado e sim, que o reconhece. Não tentemos apagar, encobrindo-o, ele pode crescer! Assuma, e de erro ele passara a ser exemplo!

Sejamos heroicos e ensinemos às próximas gerações que ao invés de esconder, podemos consertar.

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Posted in: Carol Szabadkai