De Volta à Liberdade de Menina

Posted on 10/07/2015 por

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Flávia Frota Cavalcanti

Este título é contraditório porque tudo que uma menina quer na vida é conquistar a tão sonhada liberdade. Aí venho eu, uma mulher feita, escrever sobre isso, não seria um absurdo?

Seria sim, diante dos meus 12 anos, uma completa insensatez. Mas hoje, na minha realidade adulta descobri que existem vários tipos de liberdade. E mesmo sendo dependentes, vigiados e tendo que dar satisfação aos pais, crianças e jovens também têm sua maneira de ser livres, provavelmente pássaros muito mais soltos do que imaginam…

Esses dias em Manaus tem feito um clima maravilhoso, temperatura agradável e muita chuva. Facilitando assim o ato de contemplar a natureza, seus fenômenos, belezas e mistérios.

Favorecendo tudo isso estão as férias escolares, a cidade e a vida mais tranquilas e o calor escaldante nosso de cada dia vem dando uma ligeira trégua. Às vezes parece vida de interior, o tempo passando mais devagar, o coração leve…

Uma Rua Como Aquela

Então crianças de apartamento resolvem passear de bicicleta na rua. – Mas como? Hoje em dia isso é muito perigoso, explica a mãe. Eu vou junto! E lá vou eu começar a melhor parte da história…

Vocês, leitoras e leitores, já leram Uma Rua Como Aquela, de Lucília Junqueira de Almeida Prado? É literatura infantojuvenil, eu já li e vou contar. Não, não vou contar o livro, apenas falar das experiências que vivi.

Aos 12 anos, quando tudo é encantado, a professora Célia, de Língua Portuguesa, recomendou a leitura dessa obra. Estávamos na 6ª série [atual 7º ano do Ensino Fundamental]. Minha amiga Lúcia, recém chegada de Brasília para estudar conosco em Manaus, já tinha lido e contou que havia gostado demais.

Além dela ter vindo estudar no meu colégio, veio também ser minha vizinha, chegou para fazer parte da nossa versão de Uma Rua Como Aquela. Lúcia morou apenas um ano em Manaus, mas o tempo suficiente para nos tornarmos inesquecíveis uma para outra.

A nossa Rua Como Aquela era – e ainda é – um conjunto residencial de 51 casas, com apenas uma alameda sem saída, e tem em seu nome a palavra Vila. Passei a infância e a adolescência ali, cresci rodeada de uma porção de amigos, tivemos uma meninice de rua, brincando e fazendo travessuras em grupo.

Lúcia foi embora de Manaus no final daquele mesmo ano, mas continuamos nos comunicando por cartas durante muitos tempo. Depois perdemos o contato e mais tarde, há uns 5 anos, nos reencontramos através de uma rede social. Poucos meses depois estaríamos juntas em Brasília, apresentando nossos maridos e filhinhos.

De lá pra cá ainda não tivemos oportunidade de nos rever pessoalmente, mas o coração e as palavras continuam cultivando nossa eterna amizade. Eu sou a porta-voz de Manaus, da Vila e dos amigos para ela.

Então, ontem, enquanto vivia o meu momento de volta à liberdade, passeando alegremente de bicicleta pela rua, subindo e descendo ladeiras, tendo o rosto acalentado pelo vento, observando as mesmas árvores que presenciaram nosso crescimento e cicatrizes no joelho, lembrei muito dos antigos vizinhos, em especial dela, Lúcia.

Passamos a tarde juntas, digo, conectadas, nos comunicando por mensagens de celular. Eu tirava fotos e mandava para ela com legendas: Aqui era a tua casa, aqui era a casa do Onça, esta é a pracinha da frente, olha o parquinho, como está lindo!

O lugar é muito verde, bonito e agradável. E enquanto pedalava, reencontrava antigos vizinhos e revivia bons momentos, pude sentir toda a liberdade que uma garota é capaz de ter… Refiz laços, estive em contato com uma grande amiga, comovi-me e emocionei a ela também.

Descendo a ladeira, lá no final da rua, há um bosque, tranquilo e bonito. Ali era um dos nossos melhores pontos de encontro, conversas e brincadeiras. E ao descer essa ladeira, eis que lembrei de outro livro:

A Ladeira da Saudade – Ganimédes José

Este, creio que li no ano seguinte, 7ª série [8º ano do Ensino Médio] foi a professora Ana Maria Fernandes quem solicitou. Enredo romântico envolvendo dois adolescentes, Dirceu e Marília, tendo como cenário as ladeiras de Ouro Preto.

Então pensei: como o destino é generoso, passaram-se algumas décadas e hoje estou eu aqui a trilhar os mesmos caminhos das primeiras fases da vida…

E esse lindo encontro só foi possível graças às crianças afoitas por passear livremente de bicicleta, e às minhas tias queridas, que hoje vivem na mesma casa onde morei.

É sorte, é mágica! A felicidade se manifesta de diversas formas, é só saber perceber e aproveitar!

P.S.: Em 2012 me deu uma vontade enorme de reler as duas obras aqui citadas. Como não tinha mais meus antigos exemplares, comprei e reli. Confesso que adorei refazer essa viagem no tempo… Como ontem, também foi encantador!

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