Onde é que há gente?

Posted on 23/07/2015 por

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Poema  em  linha  reta

Por Tânia Barroso

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.”

Poema em Linha Reta

Fernando Pessoa

Quando pensei neste poema, custei a lembrar seu autor. Me ocorreu  Martha Medeiros e suas considerações sobre os dias de hoje. Nada disso. Era o grande Mestre, poeta português, Fernando Pessoa (1888-1935). Aí pensei ser uma coisa super atual e parecer um comentário sobre o Facebook. Não poderia. São novos recursos do moderno mundo digital. O poeta não os conheceu.

           Já repararam que nesse meio todos se amam, se admiram?  É gente tão elegante. Quase dá pra sentir seus perfumes. Fotos de viagens fantásticas fazem parecer que tudo transcorreu super bem. Nenhum incidente. Gravuras  lindas, muitas vezes acompanhadas de trechos de poemas riquíssimos. Aliás, é deles que mais gosto.

Continuo a reflexão e me vem uma fala, exaustivamente repetida por minha mãe: “Por fora bela viola, por dentro pão bolorento?” Era dita com seriedade e pretendia ensinar que uma menina não vestisse roupa limpa e bonita se não estivesse ela mesma limpa e asseada pós banho: Não se vive de aparência! Era a lição.

Parece que cheguei a um entendimento. O que se mostra não é a verdade total. São aparências. São elas que preenchem o mundo virtual.

Pessoa continua, em íntima revelação  “…E eu tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, …que tenho sofrido enxovalhos e calado, que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; …” Seria essa revelação publicada em algum face?

Acompanho, uso e me encanto com essas novas possibilidades de comunicação social. Embora me preocupe intensa valorização da aparência. Nós, há mais tempo no mundo, temos certeza de que revelações como de Pessoa são  feitas pela literatura, pelo cinema, pelo teatro. Pelas artes, de uma maneira geral. E sabemos o quanto isto ajuda a decifrar nossas próprias vidas.

Pergunto quanto os mais jovens, que já nasceram neste mundo virtual, tem conhecimento da vida fora das telinhas. Nós os levamos lá?

Lembro a história de uma criança, acostumada a ver muito filme de bichinhos falantes, levada pelo tio a um sítio de verdade. Chorou copiosamente. Decepcionado, queria só voltar pra casa. Ali, naquele lugar, os bichinhos fugiam, não brincavam e nem queriam falar com ele. Ali era a parte do mundo real que ele ainda não conhecia.

Afinal, o poeta revela nos versos  sua invisível alma humana, sem aparências, mas que lhe permite viver. Vida de gente.

“… Ó príncipes, meus irmãos,

          Arre, estou farto de semideuses!

          Onde é que há gente no mundo?…”

Me restam ainda perguntas: Pessoa previu o que aconteceria? Ou valorizamos as aparências bem antes das telinhas do mundo virtual?

Ou temos sido invadidos pelas telinhas, de maneira quase única e absoluta, o que nos dificulta outras formas de olhar ou conhecer o mundo real?

Ou…

(pense você no que vivemos hoje e preencha seu espaço se lhe convier)

Inverno 2015

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Posted in: Tânia Barroso