Sentimentos mistos

Posted on 13/08/2015 por

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Por Carol Szabadkai

Depois de viver 22 anos no Brasil, jamais imaginando ou cogitando morar fora, eis que o

destino me mostra que meu caminho é para a Hungria…

Foram alguns anos de deslumbramento e dificuldades para aceitar o novo e diferente.

Na primeira fase, tudo é lindo e você só vê maravilhas, depois começam a saltar aos olhos as

coisas em que a sua antiga casa era melhor (na verdade, não é melhor ou pior, só é diferente,

mas a saudade enfeita os fatos de maneira que pareçam melhores). O primeiro ano é dificílimo

e é ele que vai determinar se você consegue ou não viver em outro lar. A saudade aperta como

nunca foi imaginado antes e você se pega até sonhando em comer arroz feijão e bife. É

impressionante como a comida é marcante na nossa vida! Jamais listaria nas saudades, se não

soubesse o quanto eu iria sonhar com churrasco, que antes já me enjoava, por ter todo final

de semana. Músicas que eu nem gostava, trazem lágrimas aos olhos, só porque fazia parte do

ambiente que agora está longe. Nem preciso comentar sobre família e amigos… essa é uma

saudade que jamais vai diminuir, podemos apenas acostumar com ela, como uma doce dor

constante, amenizada somente ao pensar em como você tem sorte por tê-los em sua vida.

Lembro-me que ao final do primeiro ano na Hungria, em uma festa com os amigos, a dor foi

tanta, que tive que sair para chorar um pouquinho. Era tudo tão difícil! Faltava tudo do Brasil e

eu não conseguia me comunicar com aquela maldita língua! Já entendia muita coisa, quase

tudo, nesse período, mas montar as frases era um constante desafio e até que eu conseguisse

elaborar alguma coisa que fosse compreensível, daquilo que eu pensara, já não valia a pena

pronunciar, pois o assunto já estava totalmente diferente. Eu não conseguia fazer um

comentário espirituoso, perdia todas as piadas… Só Deus sabe como era uma tortura perder a

piada!

O tempo foi passando e fui me adaptando ao diferente, entendi muita coisa e parei de

comparar (mesmo sem querer, acabamos fazendo comparações, o que não ajuda em nada),

passei a aceitar. Aprendi a responder mais rápido e melhorei na língua húngara, o que foi um

imenso alívio. Os amigos passaram a me achar divertida. Eu sou divertida! Enfim, acostumei-

me a viver na Hungria e me senti em casa.

Mas e o Brasil? Meu patriotismo diminui?

Pelo contrário! Tornei-me ainda mais patriota!

Ao mudar de país, vemos quanta coisa boa existe no nosso, até mesmo coisas bobas ou coisas

que parecem ser tão naturais, mas não é. Por exemplo: em qualquer restaurante é possível

pedir suco de frutas natural ou vitaminas, na Hungria, em restaurantes, só bebidas

engarrafadas. Hoje em dia, não consigo ouvir o hino nacional sem chorar e sentir um enorme

orgulho por ser brasileira. Diferente do que se possa imaginar, o sentimento de pátria, de

pertencer a um lugar, não é dividido, ele é somado. Confuso? Nem tanto. Basta imaginar que é

como ter filhos. Ter mais um filho, não vai dividir o amor que você tem pelo outro, vai ser mais

um amor que te enche o coração. Posso dizer que você ganha um coração a mais, pra encher

novamente.

Graças à Hungria, sou mais brasileira e ao mesmo tempo, bem húngara. Nem tente falar mal

de um dos meus países! Viro uma fera! Só eu posso xingar!

Certa vez, um amigo me disse:

– Carol, você é a brasileira mais húngara que eu conheço!

Acho que me define bem.

Passei um mês no Brasil, recentemente, e aumentei minha saudade, pareceu pouco. Mas

pareceu muito longe da Hungria. Voltei com um olho chorando de saudade e outro sorrindo

por chegar em casa. E quem disse que sentimentos são simples de se definir? Creio que ainda

não exista um nome para isso que expatriados sentem: uma soma, meio felicidade, meio

saudade, que completa e cria vazios, mas te enche de um amor constante…

Já sinto sua falta, meu Brasil! Mas que bom estar de volta à minha Hungria!

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Posted in: Carol Szabadkai