A Partilha

Posted on 20/08/2015 por

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Velhinhas

Por Tânia Barroso

 

Velhas amigas reunidas no restaurante. Faltava a aniversariante. De repente,  Dagmar anuncia:

– Graças a Deus! Vem, Yolanda. Já estou com uma fome danada! Costumo almoçar meio dia em ponto e já é meio dia e meia.

– Yolanda? Aquela mulher que está entrando é uma senhorinha de uns 80 anos. Yolanda  tá muito melhor. Você tá cega?

– Meus Deus, quero morrer, aqui, agora, se não for a Yolanda.

Jurema provoca

–   Dagmar, não diz asneira. Você já tá mais pra lá do que pra cá. Com  fome            então… ainda vai botar a culpa na Yolanda se cair dura por aí.

– Oi gente, desculpe o atraso. Saí de casa há duas horas. Mas tava um engarrafamento… e vocês sabem que ando devagarinho. Mas não foi só isso. Trocaram a mão de algumas ruas lá perto de casa. Aí é que errei mesmo todo o caminho. Já tava acostumada com um e foi outro. Ainda tive que estacionar o carro tão longe daqui e depois pra vir a pé… Esta cidade tá ficando impraticável!

– Viu, Jurema? Posso estar com fome, mas cega quem está é você! É ou não é a Yolanda?

O almoço foi pedido em alvoroço. Pareciam crianças debruçadas no balcão da cantina da escola. Duas preferiram pratos com carne vermelha, as demais escolheram franguinho, massa e peixe. Vera proclama erro nos pedidos:

– Adalgisa, você pediu carne vermelha?

– É!… Meu médico diz que precisamos comer carne vermelha na nossa idade. Proteína. Mas só gosto da bem passada. Aquela sangrando, gosto não.

– Acho que seu médico tá maluco. Todo mundo sabe que velho não deve comer carne vermelha.

– Não devia. Agora, pesquisas mostraram que a proteína tem feito muita falta aos velhos. Aliás, olha só, não gosto muito dessa palavra. Prefiro idoso. Aliás, ainda não sou idosa. Nem cheguei aos oitenta.

Risada geral. Uma catucava a outra. A aniversariante pediu que não se discutisse esse assunto. Afinal era justamente isso que estavam comemorando. Chamou o garçom e solicitou que ele tirasse uma foto. Adalgisa reclamou que a mesa estava vazia e sugeriu que esperassem os pratos chegarem. Implicando com Vera, disse que queria levar uma lembrança daquela carne vermelha. Pelo menos na foto. Risos.

Parece que sempre discordavam. Vera do signo de touro e Adalgisa de escorpião. “Os opostos que se complementam”, explicaram a vida inteira.

Todas servidas. Pratos à mesa e Yolanda refaz o pedido ao garçom. Este se posiciona e clica. Reclamação geral! “Puxa, eu tava de boca cheia!”  “Meu filho, quando for assim tem que avisar antes.” “É! A gente precisa esticar o pescoço e tirar os óculos.”

Seguidos os rituais de preparação para o clique, por favor, moço, de novo!

– Adalgisa, o que você está fazendo atrás da cortina?

– Não quero tirar foto, Yolanda.

– Você está maluca?

– Não. Estou cega. Quem aparece nas fotos que tiro atualmente não é quem sou.

– Pelo amor de Deus, Adalgisa. E quem você é?

– Não sei. Acho que me perdi no tempo.

– Olha só, Adalgisa, quem está cega aqui é a Jurema, que não enxergou a Yolanda chegando, lembra? Agora, pelo amor de Deus, Adalgisa, sou eu, sua amiga Dagmar, lembra de mim? Costumo almoçar ao meio dia e já são mais de uma hora da tarde. Fica bonitinha aí, pro moço bater logo esta foto e a gente poder almoçar.

– É Adalgisa. Assim sua carne vermelha sai na foto e você vai poder, então, matar a fome com seu boi morto. Risos.

A aniversariante reclama:

– Gente, vocês estão muito agitadas hoje. Por favor, é meu aniversário. É só um minuto! A gente sorri, o rapaz tira a foto e pronto. A gente almoça e bate papo.

– Yolanda tem razão. Vocês tão precisando tomar Rivotril.

– Tá maluca! Esse é brabo. Eu fico com meu chazinho, disse Adalgisa.

– É, querida. Comendo carne vermelha, ao invés de chazinho, você vai precisar mesmo é de uma coca-cola pra fazer uma devassa aí. Risos.

Luiza foi a primeira a terminar o almoço. Então, em voz bem baixinha, contou às amigas, ainda de bocas cheias, que o marido de Cleonor havia falecido.

– Cleonor casou de novo? Eu não sabia, disse Vera.

– Não. Estou falando daquele que foi o marido dela. Ubiratan.

– Ah!… Aquele safado. Mas já foi é tarde. Tarado do jeito que era, o coração não ia mesmo aguentar muito. Vou contar um segredo pra vocês: ele me deu várias cantadas quando ainda era marido da Cleonor.

– Gente, em mim também. Disse Adalgisa. Agora que ele já se foi a gente pode falar.

– Pelo amor de Deus, tenham cuidado com o que dizem. Afinal, quem morreu foi Ubiratan. Cleo está bem vivinha e talvez não goste de saber que seu marido cantou todas as suas amigas. Inclusive eu. Na verdade, na época fiquei até lisonjeada. Aqui entre nós, ele era um pão! E achei que aquilo fosse só comigo.

E riram com a cumplicidade que os anos de amizade lhes permitia.

– Vera você continua fazendo Pilates? Eu agora estou só na hidroginástica.

– Não, cansei. Chega de pagar pra malhar. Faço dança na pracinha. É de graça e além do mais fico em forma pros bailes do clube. A gente tem que ficar de olho naquela mulherada de lá. Hoje em dia é difícil achar um homem legal. Dão em cima do Otávio direto! Por isso me mantenho em forma. Sabe como ele é! Por favor, não comentem com ninguém, mas ele toma Viagra.

– Ah! Antenor não pode. Teve infarto e o médico proibiu. É o maior sufoco!

Quando terminaram, pratos raspados, Luiza anunciou que pediria uma sobremesa. Com extremo pudor, todas agradeceram o convite, e se disseram satisfeitas. Tomariam um chazinho, se tivesse. Luiza pediu uma torta da casa, que foi muito bem servida. Assustou-se com a quantidade e solicitou ao garçom que trouxesse cinco colherinhas, por favor. Brincaram de escravos de jó e, naquele momento, a sobremesa foi partilhada entre as amigas, como a vida, desde os tempos de escola.

Inverno de 2015

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Posted in: Tânia Barroso