Uma longa caminhada

Posted on 31/08/2015 por

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Longa caminhada

Rebeca Winckler

 

Estava sentada em uma cadeira e não na mesa como dizem por ai. Estava eu ali com uma amiga. Eu precisava de levantar, não queria, mas precisava; hesitei. Eu pedi a ela que me ajudasse, oh como eu pedi! Implorei por ajuda, pedi clemencia, estava tudo tão confuso. Eu estava nervosa. Novamente, em uma última força, um último folego recorri a ela, mas falhei. Falhei de novo. Por que ela estava fazendo isso comigo? Por que? Sempre fui gentil, amiga e solidária para depois ela me tratar desse jeito? A raiva subiu a minha cabeça enquanto uma gota de suor, frio, mas suor, escorria pela minha face. Oh! Como desejei a morte, dela, naquele momento. Tudo o que eu queria era que ela se engasgasse com seu último pedaço de salmão acompanhado por um arroz “paposo” e sem graça. Eu não comi o meu. Como poderia, afinal? Aquilo não era arroz, mas sim todos meus medos e angustias descendo pela minha garganta, rasgando-a como se fosse um veneno amargo.

Resolvi então ter coragem e não tomá-la, como dizem por ai. Eu levantei, sim levantei. Não andava eu mas sim meus pés trabalhando ardilosamente com minhas pernas para chegar ao meu destino, ao final. Sim, ao meu destino; a tudo que temia, que me causava calafrios. Mas, o ódio, a raiva, o desprezo e a ilusão estavam comigo. Então, em uma tentativa de causá-la um arrependimento, um nó na garganta ou até mesmo um toque em sua consciência, olhei para trás. Olhei seus olhos, sua boca suja de arroz, aquele arroz, e um sorriso. Um sorriso que cortou mais que navalha, um sorriso dizendo-se satisfeito com um ardil tom de sacarmos. Respirei fundo, e a ignorei. Voltei a encarar meu destino. Eu estava vendo ele como uma águia vê sua presa. Ele estava ali bem na minha frente, quando meu maior medo aparece. Eu simplesmente não acreditei que meu maior temor estava ali pronto para me ver avassalar. Tentei ir mais devagar mas o comando de minhas pernas já não estava comigo, meus pés tinham me traído, também. Fiz o que tinha que ser feito. Falei com a receptora da mensagem e não tive a audácia de encarar meu inimigo nos olhos, cabisbaixa voltei ao meu lugar com meia vitória. Voltei porque não havia mais o que ser feito, o tiro já tinha saído, a palavra já estava lançada e o leite já estava derramado, como dizem por ai.

Estava eu no meu lugar, na estaca zero com fúria nos olhos, minha “amiga” ria da minha desgraça e eu sem saber o que fazer calei-me, desejando apenas que o solo abrisse e que caíssemos nele. Então, se não tivesse como piorar, meu inimigo senta-se na minha diagonal. Por que? Eu já não havia sofrido o bastante? Já não havia pagado minhas dívidas com o carma? Senti-me como se tivesse um espelho do tamanho de um muro bem na minha frente mostrando minha vergonha, meu medo, minha raiva e meu total constrangimento. Mas, como negar minha natureza? Como matar minha carne? Aqueles dois temakis não haviam saciado minha fome. Eu tive que fazer isso. Eu tive que pedir um lanche de queijo com linguiça para acalmar meus instintos. Eu tive que me levantar para pedir, já que não tinha garçons naquele lugar e minha querida colega não se voluntariou. O príncipe encantado tinha que estar na fila para ver eu pedindo mais um lanche. Ele tinha que sentar em minha direção para ver meu prato sujo com arroz, aquele arroz e notar que eu já tinha comido. Ele tinha que estar lá e se não bastasse tudo isso, o lanche ainda veio com um copo de coca-cola.

 

Rebeca Winckler:

Meu nome é Rebeca Winckler, sou estudante de letras, possuo aspiração por lecionar e escrever. Penso eu que ler e escrever é uma das melhores maneiras de esvaziarmos nós mesmo para nos enchermos de algo cada vez mais fantástico.

 

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