Nelson, o flanelinha

Posted on 03/09/2015 por

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flanelinha

Por Douglas Amorelli

Como um Macuinaíma moderno, meu herói de hoje não “faz o requisito”.

No estacionamento do Brasil 21, prédio comercial de Brasília, existe uma máfia secreta dos flanelinhas. Eles chegam até a ter ‘ponto’, que pode ser negociado. Quanto mais perto do edifício e mais vagas, maior o valor. O negócio é simples: R$ 50 por mês e todos os dias eles arrumam um espacinho para você estacionar o carro. Algumas pessoas deixam a chave e eles vão fazendo o remanejamento dos veículos. Dos três que trabalham lá, você escolhe um para lhe prestar o serviço.

Certo dia, quando cheguei, não tinha nenhum carro do Nelson estacionado. Opa, espera. Que falta de educação, eu nem apresentei o Nelson.

Nelson tem aproximadamente 1,80, negro, magro, com um chápeu de militar para missões no deserto. Parece que vive a milhão o tempo inteiro. Para poder pagar o primeiro mês, tive que correr o estacionamento inteiro atrás dele. Muito simpático, mas não leva jeito para negociante. Consegui um desconto de R$ 30 no ‘serviço’ sem nem precisar chorar.

Então, certo dia, quando cheguei, ele não tinha nenhum carro estacionado. Como não poderia esperar, deixei a chave com ele. Tenho tendência a confiar muito mais em pessoas humildes. Subi e fui trabalhar.

Como o ápice da minha rotina se dá às 18h/19h, não pude descer para pegar a chave com o Nelson, que vai embora por volta das 16h. Profissional autônomo tem algumas regalias, né?

Quando fui embora, aproximadamente 21h, descobri que a chave não estava na recepção da minha empresa, nem na recepção do prédio, muito menos no pneu escondidinha. Meu Deus, cadê a chave do meu carro?

Não sou hipócrita. Com certeza xinguei ele muito. Mentalmente e pra foralmente também.

O flanelinha que fica vagando pela noite me deu a sugestão de ir ao chaveiro, mas eu não tinha dinheiro. Ele disse que me emprestaria. Peguei a grana emprestada com o flanelinha da noite, que tinha visto pela primeira vez, mas não deu certo. A barraquinha das chaves estava fechada.

Então, enquanto esperava um amigo para buscar a chave reserva do carro em casa (ele ainda não sabia dessa missão extra, achou que iríamos direto para o bar), eis que surge no horizonte do sereno Nelson, o meu herói. “Ei, ei, ei. Olha aqui a sua chave, rapaz”, disse ele.

Pronto, já estava perdoado.

Imaginei que ele fosse pedir mil desculpas e se explicar. Mas não, ele pediu uma carona para o metrô porque tinha voltado do ‘P Norte’, bairro distante do centro, só para me dar a chave.

Dei carona.

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