Lá é o Paraíso

Posted on 24/09/2015 por

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Lá é o paraidso

Por Tânia Barroso

 

Dia de esvaziar a casa, trancar a porta, passar a chave. Fechava-se o ciclo. Agora só as lembranças falariam dos momentos mágicos que vivemos alí com absoluta intensidade e deslumbramento.

Fiz na serra minha casinha de boneca, como sonhara ainda menina.

Dei ao lugar o nome de “Paraíso”. A ele todo batizei e não nomeei mais nada. Só fingi que era meu.

Da cozinha, onde passei bom tempo, temperei amor para oferecer em forma de alimento. Sobre a pia, janela aberta, a vista de  hortênsias luminosas abraçadas à cerca branca de madeira. Pelas janelas da sala via as montanhas em seu início de formação. Como se fossem pequenas. Eu no topo. Lá em cima, onde anjos esbarram asas com borboletas azuis em seus vôos rasantes.

Penduramos meias na lareira e juntos esperamos Papai Noel que, em pessoa e como o Vô Mozart, sempre esteve no meio de nós.

Escondemos ovos de chocolate pelo enorme quintal camuflados sob a grama,  arbustos de antúrios, pé de louro, azaléias.

Alimentamos frangos e pássaros que vinham buscar o sagrado pão em nossas mãos. Cães e gatos da vizinhança que não resistiam ao cheiro que brotava da carne de churrasco, dourada na brasa.

O tempo não tinha pressa nem compromisso. Passava manso como o rio que, bem ao lado, cantava sua presença.

Foi lá que deduzi que tudo copiávamos da natureza.

Nem o melhor perfume se compara ao oferecido pela terra molhada, após a  chuva, onde habitam eucaliptos. Ipê amarelo, no inverno, acariciava o verde. Araucárias mantinham seus vários braços abertos saudando a vida. Pinheiros nos lembravam árvores de Natal e já eram enfeitados, em alturas que sequer alcançaríamos. Imaginava como se entrelaçariam tantas raízes, mãos invisíveis, em  movimentos de harmonia.

Certa vez vi um colar de brilhantes pendurado na varanda. Olhei com atenção e para meu encantamento, notei que era uma teia de aranha, regada pelo orvalho de ontem, reluzindo aos primeiros raios de sol.

A arte voava ao nosso redor. O Tiê Sangue era pintura de limites perfeitos entre o vermelho e o preto. A Saíra-sete-cores saíra dos pincéis de um artista mesclada de alegria e festa. E nossa Sabiá Laranjeiras, que encanto de canto!

Um dos pássaros, só ouvimos às vésperas de nossa despedida. Mais parecia uma flauta.

Mas foi mesmo um violino, nas mãos daquele artista, que veio encerrar nossa festa.

Eduardo e Tati, durante anos, prepararam nossa casa com carinho, para que a encontrássemos limpa e ali quiséssemos estar. Deixavam boas energias, percebidas logo que chegávamos.

Ele veio de mansinho, naquela tarde, e confessou estar sentindo explosiva alegria em seu coração. Gostaria de nos presentear e não tinha com o que. Aí ouviu um estalo que parecia vir do seu violino. Protegido na caixa, colocou-o ainda dentro de um saco plástico. Calçou suas botas de borracha e atravessou o rio abraçado ao seu companheiro. Bateu a nossa porta e ofereceu música. Atônitos, confusos, custamos um pouco a perceber. Queria tocar e cantar para nós. Carinho de despedida.

A casa em completa desordem. Caixas de papelão espalhadas, paredes vazias de quadros, prateleiras sem livros, tapetes enrolados.

A música tudo inundou. As letras cantadas falavam de novos caminhos. Em não se perder a fé. Em prosseguir na convivência fraternal. Toda desordem  ficou pequena e insignificante. Mais uma vez, era Eduardo limpando, não só a casa, mas nosso caminho.

Obrigada, Eduardo! Seu presente para nós foi único. Sua oração está em nossos corações. Sua benção nos iluminou.

Estou indo comigo

                                                           Onde estiver

                                                           Lá é o paraíso

                                                                                                           inverno de 2015

 

 

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