O espelho

Posted on 28/09/2015 por

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Fardão

Por Gilmara Peterle

Outro dia, entrando no elevador com uma turminha, me deparei com uma cena que me chamou a atenção. Observei que todos que ali entraram “reverenciaram o Lago de Narciso”, com exceção de uma pessoa.

Enquanto subíamos os andares, me veio à mente um conto de Machado de Assis que li há muitos anos chamado O Espelho, que relata um fato muito curioso envolvendo um jovem e um espelho.

Pra não dar muitos spoilers (já que ninguém deve passar dessa vida pra outra sem o conto), me  limitarei a dizer que na narrativa, um jovem chamado Jacobina experimenta uma atmosfera de extrema valorização pessoal após ser promovido à Alferes. Contudo, acontece um fato que desalimenta esse seu estado interior. Sentindo-se sozinho, o jovem tem a ideia de se olhar no espelho e ao fazê-lo percebe que a sua imagem refletida aparece distorcida. Ao se olhar novamente, porém agora com a farda de Alferes, ele vê a sua imagem sem distorções. Dessa forma, o jovem passa a se olhar no espelho, com a farda, diariamente.

Naquela tarde, saí do elevador pensando nesse objeto especular, mitológico, que revela na arte e quem sabe na vida, um mundo que vai muito além da aparência_ o universo interior, psicológico, emocional. Quem nunca conversou com o espelho? Quem nunca chorou diante dele? Eu já tive a sensação (ruim) de não me reconhecer diante de um. Existe um possível motivo para isso acontecer, que é o que ocorrera com o jovem Jacobina: a presença de uma “alma exterior” na “alma interior”. Aquela farda se colara à alma do jovem. Ele já não era mais, senão o “outro”.

Seria muito bom se a lei da física se aplicasse também às almas: duas almas não podem ocupar o mesmo lugar no espaço, porque quando essa segunda alma “nasce”, a primeira perde a capacidade de existir, existindo. É nesse conflito interior, angustiante, que muitas vezes nos rendemos à ditadura do “viver outro”, cuja busca por superioridade acaba por fazer da nossa vida uma fraude. Quando isso acontece, já não se pode dizer Eu, então o que há é farda…fardo!

Caro leitor(a), quando você se olha no espelho, que alma tem visto?

Aquele dia, no elevador, curiosamente, eu conheci uma pessoa que disse nunca se olhar no espelho!

Gilmara

Gilmara Peterle é capixaba, mora em Vitória, ES. É formada em Letras e Pós-Graduada pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
É leitora do Curta, o principal responsável por sua inserção no universo das Crônicas.
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