O Júnior é paia, mas a Sandy é bonita

Posted on 01/10/2015 por

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sandy e junior

Por Douglas Amorelli

Toda criança tem uma história em que foi alvo de bullying. Resolvi contar só uma para não tomar a semana inteira de vocês com todas elas.

Se você não tem uma história assim, certamente é o filho da puta que sacaneava os outros.

Na segunda-série do ensino fundamental, estudava no colégio Rogacionista, no Guará. Era um garoto normal. Magro, baixo e cabeludinho. Meu foco era apenas estudar (naquela época era um dos especialistas em operações de subtração e conhecedor nato dos pontos cardeais).

Eu tinha um amigo loirinho, se não me engano ele chamava Gabriel. Éramos muito próximos. Talvez o meu primeiro ‘melhor amigo’.

Por outro lado, existia o Raphael. Ah, cara, como eu te odiava. Ele parecia o personagem principal do Star Trek. Ele tinha uns dez centímetros a mais que eu. Hoje, deve ter dez a menos.

Ele fatalmente deve ter um trabalho nojento de chato, assim como ele era.

Meu primo mais velho tinha ganhado uma lancheira nova e a minha tia me deu a antiga dele, da dupla Sandy e Júnior. Sim. Como eu não podia fazer desfeita guardando o lanche na mochila, ia todos os dias com a Sandy e o Júnior, juntos, debaixo do meu braço.

Eu já sabia que seria zoado. Tanto que quando tocava a sirene, pega o lanche na lancheira e descia com ele na mão. Deixava a lancheira escondida atrás da mochila dentro da sala de aula. Inclusive, antes do sino bater, subia sorrateiramente para guardar a garrafa de suco na lancheira.

Certa vez, o filho da puta do Raphael me flagrou manuseando a lancheira e perguntou:

– Ué, você tem uma lancheira do Sandy e Júnior?

Eu, todo sem graça e já prevendo as consequências, tentei reverter a situação:

– Ah, o Júnior é paia, mas a Sandy é bonita, né?

Já era. Ele juntou todos os meninos da sala, inclusive meu ex-primeiro “melhor amigo” para me sacanear. Parece bobo agora, mas na época foi a morte.

Entretanto, nesse dia tive sentimentos bons também: o sadismo de ver a desgraça alheia. Depois de chorar um bocado, fui até a diretora para reclamar. Era eu, o menino choroso da lancheira do Sandy e Júnior, contra os meninos maiores que já tinham um comportamento duvidoso. Além do Gabriel, que era bonzinho, mas botei no meio da confusão. Vacilão morre cedo.

Entreguei todos para a diretora, sem perdão. Inclusive relembrei algumas outras histórias antigas que estavam entaladas. A justiça penal da escola não tem ressocialização, é suspensão e ponto. PONTO.

Raphael três dias, Gabriel um. E eu me livrei da lancheira do Sandy e Júnior.

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