“Tudo é claro e contente como a manhã recém-nascida”

Posted on 05/10/2015 por

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clarissa

Por Flávia Frota Cavalcanti

Aos 13 anos eu estava descobrindo o mundo, seus encantos e mistérios, quando li Clarissa, de Erico Verissimo. A protagonista tinha a minha idade e estava ansiosa para completar 14 anos.

Dentro de pouco tempo tudo vai mudar. Mamãe já prometeu em carta: Quando fizeres quatorze anos, eu te dou licença para botar sapato de salto alto”

Clarissa foi a primeira mocinha que conheci profundamente, ela me ajudou a desabrochar para a vida, éramos ambas românticas, sentimentais e sonhadoras…

“Clarissa vai andando. Nem enxerga as pessoas que passam, caminha como que cega, pensando, pensando…

Mas também éramos inquietas e inconformadas com as contradições, injustiças e dissimulações do mundo.

“Clarissa está encantada no meio de todo esse movimento, de toda essa balbúrdia. Estranha as fisionomias. Expressão de felicidade, de ódio, de aborrecimento, de serenidade, de indiferença, de ternura, de inveja. Caras que parecem máscaras que as pessoas mudam a cada instante”.

Com ela me encantei pela leitura e criei afinidade com o autor do livro. Foi ela que me incentivou a ler os outros dois romances que dão continuação à sua história: Música ao Longe e Um Lugar ao Sol. Ela viria a ser uma jovem Normalista, e mais tarde eu também cursei Magistério. Nós éramos almas gêmeas…

Depois do recreio: aula novamente.As meninas entram com o rosto afogueado, ofegantes e ainda desinquietas”.

Eu me identificava e até me confundia com a personagem Clarissa. Vivíamos o período de questionamentos, devaneios e da observação minuciosa de tudo que se passava ao nosso redor: pessoas, paisagens, sentimentos, diferenças… enfim, os contrastes da vida presente e da que se descortinava devagarinho mostrando aos poucos o futuro…

“Como é engraçada a vida! Quanto mistério, quanto segredo… os homens riem uns na frente dos outros, mas choram quando estão sós.“

Ano passado resolvi reler alguns livros que marcaram minha adolescência, e Clarissafoi o primeiro. Imediatamente lembrei que entre os sonhos daquela época, estava o de ser mãe – que sempre foi o maior de todos. Para mim, Clarissa era eu, e quando eu crescesse, quem seria ela? Minha filha, talvez? Mas com a ebulição hormonal à flor da pele e a cabeça nas nuvens, acabei esquecendo o assunto…

Este mês de agosto, Carolina – minha primeira filha – completou 13 anos. Seu presente havia sido escolhido assim que comecei a reler Clarissa. Veio o insight, mas é claro! Eu era Clarissa – e ainda sou – e agora é a vez da Carolina vivenciar a emoção desta leitura, o mergulho no mundo desta personagem encantadora, que tão bem retrata este momento mágico e transformador.

Só agora percebo as coincidências entre os nomes CLARISSA e CAROLINA: Ambos começam com a letra C, têm ao todo 8 letras e mais 4 em comum. Eu, Clarissa e Carolina temos todas cabelos negros (cor original, porque os meus atualmente estão tingidos). E minha filha caçula, Luciana, já escolheu Larissa (c.Larissa) para ser o nome da filhinha que deseja ter um dia. Coincidência? Eu não acredito em coincidências!

“Clarissa ainda corre sob as árvores. Grita, sacode a cabeleira negra, agita os braços, para, olha, ri, torna a correr, perseguindo agora uma borboleta amarela”.

Entre as coisas que só o tempo e a maturidade nos permitem compreender, está o segredo, a sedução e o encantamento da juventude. Quando moços, ouvimos as pessoas falarem sobre este mistério, mas é impossível entendê-lo sem antes vivenciá-lo.

No centro de todos esses dilemas está uma única palavra: surpresa. Ela é o dom de quem vê o mundo diariamente sendo inaugurado. O tempo de certa forma retira das coisas a virgindade e a inocência. Assim Clarissa pode ser vista como o repositório de inocência perdida de todos” nós, adultos. (*)

Na primeira vez, li o romance através dos olhos de Clarissa. Hoje a leitura se faz pela visão dos adultos, e percebo as descobertas de Clarissa da mesma forma que observo dia a dia o despertar de Carolina para a juventude…

“Clarissa sorri. Tem os cabelos molhados, a pele fresca. Senta-se à mesa, olha em torno, respira com força”.

“Olhos e ouvidos atentos, Clarissa vê e ouve tudo o que se passa a seu redor. Nada lhe escapa à percepção”.

Hoje consigo perceber a amargura de Seu Amaro, penetrar na sua visão de mundo triste e nostálgica, algo incompreensível para uma adolescente… É como na esteira da vida: primeiro deparamos com o desabrochar de Clarissa e mais tarde damos de cara com o espelho do personagem Amaro, melancólico e desiludido.

“Agora é tarde. Tarde para voltar. Tarde para corrigir. O milagre da mocidade não se repete”.

“Amaro depõe o copo em cima do mármore. E os seus olhos agora fitam o espelho da cristaleira que reflete a cara dum homem triste. Dois olhos cinzentos, parados, mortos. Lábios sem cor, finos, miúdos, quase invisíveis no rosto de cera onde a barba principia a azular”.

Era melhor não ter essa imaginação incômoda”.

Ver os filhos crescerem é uma maneira de repensar nossa própria vida. É uma segunda chance, ver um caderninho em branco – como aquele que já nos pertenceu um dia – escrevendo uma nova história… E que seja linda, e que seja bela…

“Clarissa… Como ficou moça duma hora para outra! Os sapatos de salto alto a deixam mais mulher… Como se teria dado o milagre? Ontem corria descalça no pátio sob os pessegueiros em flor, brincava no jardim com os pequeninos da casa vizinha. Hoje – ali, seios apontando, formas definidas, braços e pernas roliços, bonita…”

“E tu, menina, não podes compreender também a alegria íntima que me dás. Porque és poesia, és música, és… nem sei o que és…  […] Clarissa, se eu pudesse falar, se tu pudesses entender… eu te diria que nunca desejasses que o tempo passasse. Eu te pediria que fizesses durar mais e mais este momento milagroso. […] Onde está então a menina em flor que corria no pátio atrás das borboletas? Mas tu tens curiosidade de conhecer a vida… é natural. Talvez nem compreendas o significado deste momento”.

Clarissa, hoje você é Carolina, ontem foi Flávia e será eternamente a Clarissa de Erico Verissimo…

“… já com os olhos de quem sente saudade dum tempo perdido e irrecuperável”
“… menina que amanhece para a vida”

Mais trechos do livro:

“No pátio, Clarissa senta-se nas bordas do tanque e começa a riscar com o dedo a superfície da água azulada. Escreve nomes”.

“Clarissa! Agora ela é poesia, ingenuidade, ternura, incompreensão, encantamento… Para ela a vida está cheia de surpresas e atrações irresistíveis. Mas, amanhã, que virá? Amanhã? A dissolução, a deformidade do corpo e do espírito. Hoje – a menina verde, fresca, risonha”.

“E amanhã, quando Clarissa for embora, na pensão só haverá caras envelhecidas, homens e mulheres que arrastam os seus draminhas escondidos, as suas mazelas, os seus cacoetes, as suas idiossincrasias, as suas vidocas, enfim”.

“Encosta tristemente o rosto no muro. O portão é o limite. Além do portão está a vida com todos os seus mistérios e todos os encantos”.

“… uma menina morena sorri, olhos muito arregalados movendo os lábios de mansinho. Sua voz é um sussurro: parece que tem medo de magoar o silêncio”.

“Clarissa desce ao jardim. Quem é que não sente alegria nesta tarde bonita? Quem é que não sente vontade de viver?”

“Para Clarissa, Porto Alegre seria um mundo de revelações e descobertas, boas e más, que ela absorveria com seus olhos negros atentos para a vida”.

* Crônica Biográfica

P.S.: O romance se passa nos anos 30, foi lançado em 1933 e em 1935 nasceu Clarissa, filha do escritor.

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