Manuel Bandeira, Eterno Alumbramento

Posted on 26/11/2015 por

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Por Flávia Frota Cavalcanti

Alguns versos são inesquecíveis e nos acompanham vida afora, remetem a lembranças, saudades e ao mesmo tempo ao presente e ao cotidiano. São repletos de encantamento e vida, cheiros, sons e imagens que aguçam nossos sentidos.

Emoções que vêm nos visitar após longos anos, inesperadamente, nas horas mais inusitadas. Trazendo momentos do passado, com saudosismo, mas nem por isso com melancolia.
Assim me sinto quando vejo – revejo – o sol da casa da minha avó. Era um sol diferente, acredite, leitor amigo. Na minha cabecinha sonhadora, eu o comparava à luz acesa e quando as nuvens o cobriam, era como se a luz apagasse. Logo mais, tudo se repetia, e, como era lindo este espetáculo da natureza! Eu o admirava, assim como à rotina: a lavadeira passando roupa, minha avó e eu ali, sem pressa, vivendo uma história…
Até hoje é assim, de vez em quando aquele sol da minha infância, vem lá da casa da , simplesmente para dizer: -Eu estou aqui, como antes, sou uma recordação presente.
A mesma coisa se dá com o ruído agradável do ventilador girando… Até o calor da minha infância era diferente, menos quente eu diria, não fritava nem maltratava.  Ainda hoje, de vez em quando, escuto o ventilador da casa da minha avó. Não, não é qualquer aparelho que tem aquele som, nem em qualquer lugar. É necessário haver silêncio, poesia, clima…, aí ele vem, forte e determinado, ventilando a memória com lembranças agradáveis e adocicadas.
O cheiro do bife, do tempero, do ovo estalado – era assim que ela chamava, tudo isso ressurge. Sempre imprevisível, sem que escolhamos o momento, é a vida que traz as emoções…
Os versos, ah os versos… A professora lendo, a sala de aula, os livros, as colegas, o colégio, tudo eterno, infinito… Boas recordações nunca nos abandonam, e para mim, é sempre a mesma alegria ler ou ouvir Evocação do Recife, de Manuel Bandeira.
Quando eu iria imaginar ter um marido quase de Recife, descendente dos *Bandeira? E que aquelas ruas da infância do poeta, mais tarde, seriam palco das minhas férias?
Mais uma coincidência: as avós! O fiel leitor já deve saber da minha adoração pela figura da avó. Tive tanta sorte, que ao casar ganhei mais uma melhor avó do mundo, uma legítima Bandeira, pernambucana, personagem das ruas do Recife narradas no poema.
Aulas de literatura, professora Vânia Pimentel, ruas da minha infância,  Manuel Bandeira, Evocação do Recife… Tudo eternizado, imortal, vivo, presente!
Eis que a mágica fascinante da tecnologia me traz um vídeo do cotidiano do poeta – 1959 – coisa linda, emoção pura! Desde o início já sabia que aquilo iria dar crônica. Assisti diversas vezes, pensando, burilando, decantando a emoção…
E agora, estou aqui, diante de uma tela de computador e um teclado, tão diferentes da máquina de datilografia do poeta, que vemos no documentário, mas ao mesmo tempo tão similar. O objetivo, a função e o produto final são os mesmos: palavras, sonhos, realidade.
Ao meu lado um telefone, bem mais moderno que aquele de disco, de Bandeira, mas tão semelhante. Quando atendemos a este novo aparelho, também podemos sorrir e nos emocionar, como o autor que assistimos.
Abro a geladeira e tenho leite à vontade, não preciso sair de manhã para comprar uma garrafa, bebo leite de caixa. Modifica-se a embalagem, talvez até o sabor, mas o leite continua sendo alimento vital como sempre.
E para escrever este texto, consulto dúvidas de ortografia e vocabulário no dicionário eletrônico, e não mais no de papel, como Bandeira fazia. Mesmo assim, olho para o lado e vejo meu bom e grosso exemplar, que vez ou outra ainda me socorre, e muito bem.
É assim que a vida segue seu curso, sempre mudando, atualizando-se, mas imprimindo marcas. Dizem os mais conservadores, que os tempos modernos são diferentes. Eu diria sem nostalgia nem pessimismo, todo tempo é tempo de viver, amar, recordar e ser feliz.
Peixeiro, cascalheiro, Praça da Saudade… 
Manaus… 
Rua Ramos Ferreira… 
Casa da minha avó…
“Nunca pensei que ela acabasse! 
Tudo lá parecia impregnado de eternidade”. 
Ainda bem que existem as lembranças para eternizar o que passou…
 *quase Bandeira: a avó do meu marido tem o sobrenome Bandeira de Melo 
Evocação do Recife – Manuel Bandeira 
Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
– Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância 
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado
[e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
[na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com 
[cadeiras, mexericos, namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam: 
Coelho sai!
Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:

Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão
(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão…)
De repente 
nos longos da noite
um sino 
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.

Rua da União…
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade…
…onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora…
…onde se ia pescar escondido
Capiberibe
– Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha

Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento 

Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro
[os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
Cavalhadas

E eu me deitei no colo da menina e ela começou
[a passar a mão nos meus cabelos 
Capiberibe
– Capiberibe 
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido 
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo… 
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada 
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem 
Terras que não sabia onde ficavam 
Recife… 
Rua da União… 
A casa de meu avô… 
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade 
Recife…
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô.
Rio, 1925
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